sábado, 11 de fevereiro de 2023

Sobre o encontro com Janja e Lula - Vítor diCastro

Postagem do Vítor diCastro sobre o encontro com Janja e Lula

Meio atrasado, mas como pessoa que estava presente ontem eu queria contar como foi o encontro de Janja e Lula com influenciadores em detalhes, porque tô lendo coisas que são difíceis de deixar passar.

Eu recebi o convite há duas semanas, feito pela equipe que cuida das redes do governo. A ideia desde o começo era debater caminhos e ideias com artistas e influenciadores pra que a gente se mantivesse unido criando conteúdo a favor da democracia e contra fake news.

Cada um de nós teve que bancar todos os custos pra participar da reunião. E quando eu falo todos é todos. Não teve nem voucher de uber. Se você quisesse ir teria que tirar a grana do seu bolso.

Chegando lá encontrei muita gente querida, mas eram poucos. Deviam ter umas 50, 60 pessoas, das mais diversas áreas. Influenciadores de estilos e conteúdos bem diferentes, desde os mais políticos até os mais mainstream, e artistas da música, do teatro, da TV….

Antes do papo começar oficialmente uma equipe nos levou pra conferir estragos feitos pelos golpistas: janelas quebradas, quadros rasgados. Dentro de um dos banheiros não tem nem pia. Um horror. Gravamos uns vídeos, fizemos fotos disso e entramos na sala para a reunião.

Foi bem uma reunião formal mesmo. A imprensa presente pra registrar, todos sentados tomando café, e Janja e equipe apresentando slides sobre a importância da democracia. Relembraram detalhes do ato nojento do dia 8 de janeiro, e se mostraram ainda muito chocadas com esse rolê.

Janja deixou claro porque estávamos lá: não dá pra descansar enquanto a democracia não estiver a salvo. Falou-se muito sobre a importância de nos posicionarmos sempre a favor dela, e também de usarmos nossa influência pra levar informações verdadeiras pra contrapor as fake news.

E não se falava sobre “fake news contra Lula” e sim das as mentiras contadas sobre as urnas, sobre a constituição, vacina, programas sociais.

Depois disso algumas pessoas foram convidadas a falar, inclusive eu. Cada um trouxe a própria perspectiva sobre a criação de conteúdo pró estado democrático. Alguns relatos pessoais, críticas ao PT, ideias, dicas. Foi uma troca de experiências muito interessante.

Eu trouxe as dificuldades que passo por ser um criador posicionado, e critiquei a maneira como somos (influenciadores) sempre deixados a própria sorte, sem que haja uma regulamentação da nossa categoria como uma profissão de fato.

Marcas e público nos cobram demais pra que sejamos isentos, enquanto sabemos que a responsabilidade do nosso trabalho é enorme, tanto que estávamos numa reunião oficial com o governo por conta disso. Sugeri que algo fosse feito nesse sentido pra fortalecer a classe.

Depois da minha fala Lula chegou, cumprimentou todo mundo, e falou bastante sobre a tentativa de golpe que sofremos em janeiro, e o quanto seria importante a gente se manter firme no propósito de defender a democracia e disse de maneira bem firme:

“A gente quer receber crítica de vocês, porque eu sei que vindo de vocês vai ser algo para refletirmos, e não algo com a intenção de destruir tudo”.

Depois disso ele foi embora, mais pessoas falaram e por fim a Janja mostrou algumas ideias que ela teve para as redes oficiais e que poderíamos contribuir. Se falou sobre grupos de discussão e mais uma vez Janja disse que a equipe estava aberta ao diálogo pra construirmos juntos.

Encerrada a reunião fomos embora e quem quisesse também poderia ir ao museu nacional conhecer a exposição junto com Janja e Lula. Eu fui. A exposição é linda demais.

Depois cada um voltou pro seu hotel ou pra sua casa. Ou seja: foi uma reunião política, pra gente se reconhecer quanto grupo, pra Janja e Lula deixarem claro a urgência de trabalharmos por um Brasil mais informado e sensato. E é isso.

Foi um chamamento para o trabalho árduo. Não teve promessa, nem dinheiro, nem ameaça, nem picanha. Foi uma reunião para refletirmos juntos e depois deixar as ideias aparecerem, agora nos percebendo como aliados, como grupo.

Eu aceitei esse convite porque quero essa responsa. Quero cobrar e ser cobrado. Esperei anos pra ter um governo democrático que me deixasse fazer isso e agora vou aproveitar essa responsabilidade. Obrigado quem mandou mensagem, é um orgulho fazer parte disso.

Meu relato pode até te deixar frustrado, mas foi exatamente isso que aconteceu. E quem quiser falar, que fale. Já sabíamos o burburinho que isso ia causar até dentro da esquerda, mas cada um luta como pode, como quer. E seguimos. Obrigado ♥️

Vítor diCastro

@vitordicastro

10:07 PM · 9 de fev de 2023

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https://twitter.com/vitordicastro/status/1623851024912973824

Respeito ao patrimônio público!

terça-feira, 23 de junho de 2015

O crioulo André Rebouças (ou, "Meus heróis eram de direita, e morreram de rejeição da direita)



Há cerca de uns 12 ou 15 anos, tento entender este rapaz.

Mulato (em tese). Crioulo (de fato). — Foi o maior engenheiro que o Brasil já teve. De fato o maior engenheiro do mundo, em sua época (Há quem diga).

Esse cara entrava no palácio do Imperador (D. Pedro II), à hora que bem entendia. No maior respeito, claro.

Dizia: — "Pedro! É necessário fazer um Cadastro da Terra. Dividir a terra!"

Só tem 1 problema. Esse cara era "de direita". Direitão. Direitíssimo. Direitoso até não poder.

Seu objetivo era implantar o capitalismo — em oposição ao "feudalismo" territorial.

Só queria 2 ou 3 coisas.

1) Acabar com a escravidão — sem pagar 1 centavo de "indenização" aos escravocratas. Indenização, se houvesse, deveria ser paga aos negros.

2) Toda terra onde houvesse 1 negro cultivando há mais de 10 anos, deveria ser dado o título de propriedade ao negro.

Evidentemente, esta foi a História não contada, do 13 de Maio. Zilhões de escravos, que cultivavam 1 quadradinho de terra, foram escorraçados a ferro e fogo, ao amanhecer do dia 14, para que nem 1 centímetro quadrado dos latifúndios fosse desmembrado. (Como na lei inglesa, onde ao primogênito cabia o título de nobreza, — e toda a terra, indivisa, — e aos demais só restava o engajamento na política, na Marinha, no Exército, na Igreja ou no serviço público).

3) Afora isso, defendia — apenas — uma reforma agrária radical. Coisa de deixar o MST encabulado.

Esse rapaz (já "maduro", 1/2 velho, digamos) se opôs à República.

(ele, e também José do Patrocínio).

Não, contra os republicanos (que sempre foram abolicionistas). Contra, os "republiquistas" (que nunca foram).

Os escravocratas que, afinal, se apossaram da "República".

Mas esse rapaz, aí, foi, sim — sem a menor dúvida — um direitista.

Direitista militante.

Ferrenho. Convicto. Militante.

Comunista, para ele, era bicho de 7 cabeças. Coisa para ser perseguido e linchado.

Ele, pessoalmente (e ideologicamente), era pelo Sublime Jesus. Doce pessoa.

Tipo assim.

Sim. Metade (+1) de meus heróis, nunca foram "de esquerda". Nem morreram de overdose.

Morreram de — tentativa de serem aceitos pela direita — que nunca foi boba, e nunca aceitou "direitistas" assim.

Usou-os — e os liquidou.

(*) Este pobre autor está apenas há 12 ou 15 anos tentando entender esse negócio. Havia uma "Guarda Negra" (demonizada por toda intelectualidade "civilizada", que evidentemente aplaudiu a ditadura dos coronéis do café. Tem menos de 12 ou 15 anos que ouvi (inadvertidamente) o depoimento de um crioulo, — que ouviu de outro etc., — o seguinte diálogo, transmitido oralmente, de mestre para abadá, desde 1800 e lá vai pedrada:

- Implantaram a República! 
- O que é isso!... Implantaram a República sem consultar a capoeiragem??

Pois, foi.

Sem consulta.

Sem o menor respeito pela capoeiragem.

Nem, pela Guarda Negra de José do Patrocínio. Que, afinal, vinha a ser apenas um outro nome, para a mesma pessoa.

«» ª … • — “”

domingo, 24 de agosto de 2014

Capitalismo - Uma História de Amor

O documentário examina o impacto do capitalismo na vida do homem comum dos Estados Unidos. Os princípios capitalistas estão em conflito com os ditames cristãos e Moore mostra essa e outras contradições no modelo econômico.

Nome original: Capitalism: - A Love Story
Diretor: Michael Moore
Elenco: Michael Moore
Duração: 127 mins
Ano: 2009
Classificação: 6
País: EUA
Cor: Colorido

quarta-feira, 11 de junho de 2014

30 anos depois de 1984, Orwell está se revirando no túmulo



"Orwell está se Revirando no Túmulo" (por causa da obra de Orwell "1984", que mostrava a centralização da informação pelo poder dominante) é um documentário que desnuda a mídia tradicional americana mostrando todo o lado corrupto e mesquinho dessa instituição, que cada vez mais está nas mãos de menos donos. Monopólios e oligopólios controlam a opinião das pessoas, escondendo informações, distorcendo fatos, destruindo a democracia. "Goebbels, chefe da mídia nazista, ficaria com inveja de tamanho poder alcançado por ela hoje".

O Documentário também alerta para a janela que se abriu para combater esse quadro: a Internet. Essa é uma excelente oportunidade de agirmos antes que ela se feche.

"Nós equivocadamente pensamos em nosso país como uma democracia, quando na verdade tornou-se uma midiacracia: onde a imprensa, que supostamente deveria verificar o abuso político, faz parte do abuso político" - Danny Schecter

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A sabotagem dos EUA ao programa de solidariedade médica de Cuba


A palavra de ordem "escravidão" ("avião negreiro", "escravos cubanos" etc.) — rapidamente lançada e difundida pelos "críticos" da vinda de médicos cubanos para o Brasil — é muito mais do que uma "ideia espontânea" de blogueiros assalariados da grande mídia brasileira.

Ela é uma palavra-chave de "marketing" do programa norte-americano de cooptação dos médicos cubanos em missões humanitárias em qualquer parte do mundo.

Mais: — Ela é o mote de uma demanda judicial organizada em Miami para, de uma só vez, tentar desmoralizar a ajuda humanitária cubana, e extrair milhões de dólares da estatal venezuelana de petróleo, a PDVSA:

Esta organização [“Solidaridad sin Fronteras”] promoveu, inclusive, a demanda de vários médicos cubanos desertores, no Tribunal Federal de Miami, contra a companhia venezuelana de petróleo PDVSA, da qual exigem 450 milhões de dólares, a título de "compensação", pelo que chamam de "trabalhos forçados", ou "trabalho de escravos modernos" — expressões com as quais definem o trabalho de atenção médica solidária que exerceram em bairros e comunidades rurais pobres da Venezuela. Lugares aos quais, com certeza, ninguém os obrigou a viajar.

A sabotagem ao programa de solidariedade médica de Cuba não se limita, portanto, a campanhas "espontâneas" da grande mídia tupiniquim.

Vai muito mais longe — como o uso de toda a rede de embaixadas e demais instalações norte-americanas, no mundo inteiro, para tentar cooptar médicos cubanos para que "fujam" para os EUA — onde recebem direito de permanência e trabalho — automaticamente! — ao contrário do tratamento dado a todos os demais latinoamericanos que tentam entrar nos EUA.

Descrição do vídeo — dica da fan page (não oficial) dedicada a Celso Amorim:

Documentário que expõe as bases do plano estadunidense de sabotagem contra o programa de solidariedade médica de Cuba para os outros países pobres.

Vemos aí como os Estados Unidos dedicam somas fabulosas de dólares e recursos humanos, não para salvar vidas de gente necessitada em países periféricos, mas para tentar chantagear os profissionais médicos cubanos com o intuito de estimulá-los a desertar de sua missão.

É interessante constatar como um país pequeno e pobre, totalmente bloqueado pela maior potência do planeta, consegue fazer tanto, em termos de solidariedade.

Podemos imaginar como haveria muito mais justiça no mundo, se os Estados Unidos decidissem seguir o exemplo de Cuba, ao invés de tentar sabotá-lo.

Íntegra da reportagem cubana:

Un escándalo silenciado por los medios: el programa de EEUU para la deserción de cooperantes médicos cubanos

Lecciones de manipulación - Viernes, 01 de Abril de 2011

Un trabajo dedicado al 98,11 % de los cooperantes médicos de Cuba en el exterior que han rechazado el chantaje. A su ejemplo para la Humanidad silenciado por los medios.

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Un escándalo silenciado por los medios: el programa de EEUU para la deserción de cooperantes médicos cubanos

Este trabajo está dedicado al 98,11 % de los cooperantes médicos de Cuba en el exterior que han rechazado el chantaje. A su ejemplo para la Humanidad silenciado por los medios.

José Manzaneda, coordinador de Cubainformación.- Una de las iniciativas más mezquinas en la guerra de desgaste del gobierno de EEUU contra Cuba se llama Cuban Medical Professional Parole (1). Es el programa del Departamento de Estado que persigue la deserción y compra de profesionales médicos que integran las brigadas de solidaridad cubana en el mundo.

Un verdadero escándalo moral sobre el que los grandes medios de comunicación tienen todos los detalles, pero sobre el que prefieren no informar. Mencionar este asunto tan lamentable les obligaría a citar datos sobre la gigantesca labor solidaria de Cuba en el campo médico. Por ejemplo: que este país tiene más de 37.000 cooperantes de la salud en 77 naciones pobres, la mayor cifra del mundo (2); que lleva el 45% de los programas de cooperación Sur-Sur en América Latina (3); o el 40 % de la atención contra el cólera en Haití (4); que ha operado de la vista, gratuitamente, a un millón y medio de personas sin recursos (5); o que beca en la actualidad a casi 4.000 estudiantes de medicina procedentes de 23 países, incluidos algunos de EEUU (6).

Que todo esto lo ofrezca un país pobre y bloqueado como Cuba es demasiado espectacular para ser dado a conocer a la opinión pública, a la que solo se le presentan sus carencias y déficits.

El Cuban Medical Professional Parole es una inicativa que coordina, desde el año 2006, al Departamento de Estado y al Departamento de Seguridad Nacional de EEUU. Tal como se puede leer en su página web, ofrece tratamiento especial de las embajadas norteamericanas en cualquier país del mundo y una vía rápida para entrar a Estados Unidos, a profesionales médicos y de enfermería, fisioterapeutas, técnicos de laboratorio y entrenadores deportivos integrados en las misiones médicas cubanas.

Un cable de la embajada estadounidense en Caracas, filtrado por Wikileaks, arroja otros detalles, como que las oficinas diplomáticas facilitan el transporte a Miami en aviones especiales a quienes se acojan a este programa (7).

El periódico The Wall Street Journal publicaba en enero de 2011 un reportaje, en clave propagandística, en el que se aseguraba que 1.574 cooperantes se habían acogido al citado programa en 65 países diferentes, en los 4 años y medio desde su creación (8). La cifra parece elevada, pero hagamos un simple cálculo para evaluar el impacto real de la iniciativa. Si tenemos en cuenta que, como afirma el diario, solo en un año (en 2010), había más de 37.000 cooperantes cubanos, y que el período de estancia en el exterior –aunque variado, según la misión- suele ser de unos dos años, en los citados 4,5 años Cuba habría enviado al exterior al menos a 83.000 profesionales médicos. Los 1.574 médicos captados suponen por tanto, el 1,89 % del total. Estos resultados son un claro fracaso, si tenemos en cuenta que la iniciativa cuenta con presupuesto federal y centenares de funcionarios, que es impulsada por todas las embajadas de EEUU en el mundo, y que cuenta con poderosos aliados políticos y mediáticos en varios países.

No es casualidad que el mayor número de profesionales que se han acogido al programa ejercieran su labor en Venezuela (9). En este país está la mayor cantidad de cooperantes médicos cubanos, integrados en comunidades desfavorecidas dentro del programa de salud Misión Barrio Adentro. Es evidente que existe, en este caso, un objetivo adicional: minar el prestigio social de la Misión Barrio Adentro, posiblemente el programa social más exitoso del gobierno de Hugo Chávez, en el que la cooperación médica de Cuba sigue siendo la piedra angular.

Esta iniciativa del gobierno de EEUU incide en la utilización del tema de la emigración cubana con fines de desestabilización social y política. Recordemos que una ley de 1966, la Ley de Ajuste Cubano, otorga a todo cubano o cubana que pise territorio estadounidense permiso de residencia y numerosas ventajas laborales y sociales, algo negado al resto de la emigración latinoamericana, a la que se aplica una política sistemática de expulsión (10). A pesar de ello, las cifras de la emigración cubana en EEUU son claramente más bajas que las de otros países del área.

El programa de captación de médicos cubanos cuenta con el apoyo, directo o indirecto, de otros factores. En primer lugar, el de los grandes medios de comunicación. La gran prensa privada de los países donde más incide la ayuda cubana, como Venezuela, Nicaragua o Bolivia, silencian el gran impacto social de los citados programas médicos, mientras dan una extraordinaria cobertura al abandono de uno solo de los médicos cubanos (11).

Desde Miami, supuestas “organizaciones no gubernamentales” también apoyan el programa de captación de médicos. Es el caso de “Solidaridad sin Fronteras”, que denomina “Barrio afuera” a su particular colaboración con el gobierno de EEUU (12). En su web facilita incluso los impresos que deben rellenar los médicos, y las direcciones de consulados y embajadas de EEUU a los que pueden acudir.

Esta organización impulsó, incluso, la demanda de varios médicos cubanos desertores, en el Tribunal Federal de Miami, contra la compañía venezolana de petróleo PDVSA, a la que reclaman 450 millones de dólares, en concepto de compensación por lo que denominan “trabajos forzados”, o labores de “esclavos modernos", expresiones con la que definen el trabajo de atención médica solidaria que ejercieron en barrios y comunidades rurales desfavorecidas de Venezuela, lugares a los que –por cierto- nadie les obligó a viajar (13). Hay que recordar que la cooperación médica cubana en Venezuela tiene características especiales con relación a otros programas de ayuda médica cubana: es parte de un acuerdo bilateral por el que Cuba aporta miles de profesionales de la salud, educación, deporte, agricultura y otros sectores, y por el que Venezuela suministra a la Isla petróleo en condiciones preferenciales (14).

A pesar del silencio mediático, Cuba ha ganado, con sus programas de solidaridad internacional, un sólido prestigio en población y gobiernos de numerosos países del Tercer Mundo. Para destruirlo, el gobierno de EEUU emplea todo su potencial económico y diplomático. Mientras, los grandes medios de comunicación, olvidando su objetivo social, siguen silenciando todo esto: el ejemplo de solidaridad internacional que Cuba ofrece al mundo, y la existencia de una de las iniciativas de diplomacia sucia más inmorales y escandalosas de los últimos tiempos.

(1) http://www.state.gov/p/wha/rls/fs/2009/115414.htm

(2) http://online.wsj.com/article/SB10001424052970203731004576045640711118766.html

(3) http://embacu.cubaminrex.cu/Default.aspx?tabid=2785&mid=8016&ctl=Details&ItemID=2893

(4) http://www.cubainformacion.tv/index.php?option=com_content&task=view&id=18215&Itemid=86

(5) http://embacu.cubaminrex.cu/Default.aspx?tabid=12686

(6) http://es.wikipedia.org/wiki/Escuela_Latinoamericana_de_Medicina

(7) http://213.251.145.96/cable/2009/04/09CARACAS442.html

(8) http://online.wsj.com/article/SB10001424052970203731004576045640711118766.html

(9) http://es.wikipedia.org/wiki/Misi%C3%B3n_Barrio_Adentro

(10) http://www.cubainformacion.tv/index.php?option=com_content&task=view&id=351&Itemid=65

(11) http://www.infobae.com/mundo/557182-101515-0-Los-medicos-cubanos-se-van-del-pais-trabajar-los-Estados-Unidos

(12) http://helpexperts.org/indexbarrioafuera.html

(13) http://www.globovision.com/news.php?nid=141156

(14) http://www.cubadebate.cu/noticias/2010/11/09/diez-anos-mas-para-convenio-cuba-venezuela-fotos/

Mais alguns links sobre o programa

WIKILEAKS GUYANA CABLES – CUBAN DOCTORS FEARFUL IN GUYANA
--> http://propagandapress.wordpress.com/2011/08/25/wikileaks-guyana-cables-cuban-doctors-fearful-in-guyana/

[latam] Fwd: [OS] CUBA/US/GV - 1/15 - 1600 doctors have defected to US since 2006
--> http://wikileaks.org/gifiles/docs/898551_-latam-fwd-os-cuba-us-gv-1-15-1600-doctors-have-defected-to.html

Parole Processing For Cuban Medical Personnel
--> http://www.cablegatesearch.net/cable.php?id=06STATE135733

Targeting Cuba’s Health-Care System
--> http://consortiumnews.com/2011/06/04/targeting-cubas-health-care-system/

SCANDAL: US PROGRAM AGAINST CUBAN MEDICAL ASSISTANCE
--> http://realcuba.wordpress.com/2011/04/03/scandal-us-program-against-cuban-medical-assistance/

United States Efforts to Undermine Cuban Medical Aid Programs
--> http://www.lawg.org/action-center/lawg-blog/69-general/1221-us-efforts-to-undermine-cuban-medical-aid-programs

Cuban medical internationalism
--> http://en.wikipedia.org/wiki/Cuban_medical_internationalism

segunda-feira, 29 de julho de 2013

SICKO - SOS Saude - Michael Moore completo legendado


Mais um bom documentário de Michael Moore, depois de Fahrenheit 9/11 e Tiros em Columbine, SICKO SOS Saúde destaca o sistema de saúde americano, empresas de plano de saúde que negam assistência a pacientes e tratamentos em nome do lucro.

sábado, 20 de abril de 2013

Confissões de um Assassino Econômico



Confissões de um Assassino Econômico (em inglês, Confessions of an Economic Hit Man) é uma autobiografia escrita por John Perkins e originalmente publicada em 2004. Conta a história de sua carreira como consultor da empresa Chas. T. Main, cargo para o qual teria sido recrutado por um membro da Agência de Segurança Nacional estadunidense, NSA. Seu trabalho consistia em atuar como um assassino econômico.

Assassinos econômicos, de acordo com o autor, são profissionais altamente remunerados cujo trabalho é lesar países ao redor do mundo em golpes de trilhões de dólares.

Os assassinos econômicos atuariam manipulando recursos financeiros do Banco Mundial, da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), além de outras organizações internacionais e estadunidenses. Através de empréstimos, eles canalizariam verbas de países para grandes corporações e famílias abastadas que controlam grandes fontes de recursos naturais.

Perkins afirma que seus instrumentos de trabalho incluem relatórios financeiros adulterados, pleitos eleitorais fraudulentos, extorsão, sexo e assassinato. Um assassino econômico seria um empregado do imperialismo nos tempos da globalização.

De acordo com o livro, o objetivo final dos assassinos econômicos era o de convencer lideranças políticas e financeiras de países em desenvolvimento a contrair elevados empréstimos de instituições como o Banco Mundial e a USAID, com o objetivo de construir obras de infra-estrutura em seus países.

Os recursos dos empréstimos, porém, retornariam aos Estados Unidos, pois as empresas encarregadas das obras seriam invariavelmente estadunidenses. Os países beneficiados se veriam asfixiados com os pagamentos dos juros e as amortizações do principal dos empréstimos. Sendo assim, tais países se veriam obrigados a se subordinar à pressão política dos Estados Unidos em diversos temas.

No epílogo da edição de 2006, o autor rebate a oferta de perdão da dívida dos países do Terceiro Mundo por parte das nações do G8. Perkins alega que a proposta impõe diversas condições, dentre as quais a privatização dos serviços de saúde, educação, provimento de eletricidade, de água e outros serviços públicos. Segundo o autor, a proposta obriga ainda os países beneficiados a acabar com quaisquer subsídios às empresas locais e o fim de qualquer barreira ao comércio internacional, sem qualquer contrapartida por parte das nações do G8, que poderão continuar subsidiando suas empresas e impondo restrições, salvaguardas e tributos ao comércio internacional.

Guerra contra a Democracia


Guerra contra a Democracia - (War on Democracy-2007) (Leg Pt)

Excelente documentário de John Pilger sobre a atividade imperialista e intervencionista dos EUA na America Latina.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A revolução não será televisionada - O golpe na Venezuela - 2002

Documentário de Kim Bartley e Donnacha O'Briainsobre sobre o golpe ocorrido na Venezuela em abril de 2002. O golpe foi consumado, pois não houve resistência de Chaves que foi preso. Mas as manifestações e o apoio de militares fiéis ao país enfraqueceram os golpistas, e Chaves retornou ao governo. Participação clara da midia privada, empresários e militares oposicionistas no golpe, além de declarações do governo americano de apoio ao golpe na Venezuela.

Ponte Llaguno - Venezuela - 2002


Puente Llaguno - Claves de una masacre

Este documentário do jovem cineasta Ángel Palacios é uma obra prima de reportagem investigativa que desmonta contundentemente a intensa e inescrupulosa manipulação e tergiversação da realidade praticada de modo coordenadado pelos meios de comunicação privados da Venezuela em abril de 2002.

Este trabalho serve como um poderoso alerta a todas as pessoas de bem, para que elas possam detectar próximas manobras de igual teor em qualquer outro país ou na própria Venezuela e, assim, contribuir para que os preceitos da democracia e do respeito aos direitos humanos não voltem a ser impunemente violados por grupos quase (ou totalmente) mafiosos que, sob o pretexto de agir em defesa da liberdade de expressão, se esmeram por passar por cima da vontade popular com o objetivo de fazer valer os interesses econômicos e políticos das oligarquias locais e das grandes corporações capitalistas multinacionais.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Mundo Segundo A Monsanto



O Mundo Segundo a Monsanto

Documentário francês sobre a maior empresa de biotecnologia do mundo, e que atua fortemente no Brasil, sobretudo a produção de transgênicos.

domingo, 22 de julho de 2012

“O Lula sabe mais do Brasil do que ninguém”

Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares,
 figura nacional no Brasil, vota em Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par.
Foto: Marcelo Carnaval

Maria da Conceição Tavares, professora tanto de José Serra quanto de Dilma Roussef, amiga de ambos (que havia reunido em seu aniversário meses antes), considera ambos “brilhantes” — e Serra mais confiável do que FHC — traça perfis e um panorama a ser guardado e estudado vez por outra.

A entrevista realizada por  Alexandra Lucas Coelho foi publicada em 24 Out. 2010 no site do jornal “Público” e reproduzida em 29 Out. 2010 no site da revista “Carta Capital”.


Entrevista a Maria da Conceição Tavares

“Lula é um génio do povo”

24.10.2010 - 08:22 Por Alexandra Lucas Coelho, no Rio de Janeiro

Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares, figura nacional no Brasil, vota Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par.

Maria da Conceição Tavares é daquelas figuras “maiores que a vida”. Aos 80 anos, a fumar ininterruptamente na sua casa do bairro carioca Cosme Velho, tem algo de Indira Gandhi ou Churchill. Voz e riso de trovão, olhar agudo, resposta incisiva. Respeitada em todo o espectro político como economista e pensadora, é uma das grandes conselheiras do PT. Nunca quis ser ministra porque diz tudo o que pensa.

Portuguesa, nascida em Anadia, crescida em Lisboa, filha de um anarquista que alojava refugiados da Guerra Civil de Espanha, veio casada e grávida para o Brasil, aos 21 anos, por causa de Salazar. Desde então, ao longo de 60 anos, formou gerações de economistas e líderes políticos, incluindo Lula.

A senhora deve ser a única pessoa no Brasil que consegue juntar no aniversário dos seus 80 anos….

Os dois candidatos à presidência da República! [ri-se]

… Dilma Rousseff e José Serra.

Mas o clima estava muito bom. Eles nunca se trataram mal, nem nada. Eram pessoas civilizadas, que se tratavam bem. A campanha é que despertou essa trapalhada. A noite [do aniversário, 24 de Abril] correu perfeita. Nem se discutiu política. Foi uma festa.

Eles sempre tiveram boa relação?

Não que sejam amigos pessoais, como eu sou amiga dos dois. Mas sempre tiveram boa relação. O Serra era um sujeito civilizado. Não sei o que deu na cabeça dele agora.

Conhece-o muito bem…

Desde 1968.

… se tivesse de explicar quem é José Serra, o que diria?

Um bom economista. Ambos éramos do PMDB, a frente democrática contra a ditadura. E ele saiu para fundar, com o [Mário] Covas e o Fernando Henrique [Cardoso], o PSDB, uma espécie de ala esquerda. Muita gente não acompanhou isso. Eu, por exemplo, não fui porque não faço muita fé no Fernando Henrique, que sempre foi meio dúbio, trapalhão. O Covas é que era o homem importante. Morreu. E aí… A partir do momento em que Fernando Henrique foi para o poder, o Serra manteve a posição dele como economista contra a política neoliberal.

Porque é que acha o Fernando Henrique “meio dúbio”?

Diz uma coisa para agradar a uns e outra para agradar a outros. Não fazia política, mas era um político na academia. E o Serra não, sempre foi muito “straight”, muito direito.

Confiaria mais no Serra que no Fernando Henrique?

Sem dúvida [ri]. E o primeiro governo [de Fernando Henrique] mostrou isso. Porque aí o Serra foi ministro de Planejamento contra a política neo-liberal do Fernando Henrique. Depois foi um bom ministro da saúde. Não havia nada nele que demonstrasse que ia ter uma mudança assim tão brusca. Mesmo quando foi candidato contra o Lula foi uma campanha normal. Ele sempre respeitou o Lula.

Mas acha que Serra mudou?

Mudou. Por razões de interesse político.

Como é que essa mudança se manifesta?

Na arrogância, na agressão. Ele não era assim.

Mas na segunda volta quem passou ao ataque foi Dilma.

Mas não foi ataque pessoal, xingando ele. Foi atacando o governo anterior [de Fernando Henrique]. E ele não se defendeu.

Depois [a campanha] foi piorando. E agora piorou de vez.

Como vê o incidente em que Serra acusou o PT de ser nazi, ao agredirem-no com um rolo de papel?

Ah, são jovens na rua. Mesmo que sejam pêtistas não tem a ver com o partido em geral. Essa mania de chamar um partido de nazi, acho de maluco, num país democrático como é hoje o Brasil. A gente está extremando o argumento. O Serra está muito agressivo. É verdade que essa deve ser a última oportunidade, mas parece que lhe bateu o desespero.

Mas não acha que Dilma mudou de atitude também, ficou mais agressiva?

Claro. Mas é para responder. Defender a honra dela. Ele diz que ela é mentirosa, que disse isto e depois aquilo. Diz que ela abriga a corrupção, que é dela a culpa da Erenice [Guerra, ex-braço direito de Dilma, acusada de corrupção], que todos os problemas do Brasil são culpa dela. Ela está mais agressiva no tom, inclusive mais assertiva. Mas não está insultando, dizendo que ele é ladrão.

De qualquer maneira, [a campanha] degringolou. Passou a ser um debate agressivo e vazio. Conheceu Dilma nos anos 80, sua aluna na Unicamp. Como a pode apresentar?

É uma moça que sempre fez política, como o Serra. Fez política nos partidos radicais nos anos 70, ficou presa muitos anos, teve um comportamento fantástico na prisão, é uma mulher de muita coragem, de nervo. Ela não se desmorona à toa.

Em 80 veio para Campinas, para o doutoramento. Era brilhante. Brilhantes, eles são os dois.

Serra e Dilma?

É. Ambos são bons economistas. Isso é que irrita. Podiam estar falando de coisas importantes para o Brasil.

Portanto, em termos de economia, não fica preocupada com nenhum dos dois?

Não, não fico. Quero dizer, com o Serra fico, em termos de política. Porque ele virou muito conservador e é frontalmente contra a política externa do Brasil, essa política de autonomia. Ele não é a favor das relações Sul-Sul. Preferia que a gente mantivesse a relação Norte-Sul, mais estreita com os Estados Unidos, o que acho um erro. E ele é muito fiscalista. Tanto, que o que está dizendo é contraditório. É a favor do corte do gasto público, mas diz que vai dar não sei quantos mil de salário mínimo, e para os aposentados. Está fazendo promessas demagógicas, o que não é nada o estilo dele.

Existe a ideia de que a Dilma é uma construção do Lula, alguém que não tem personalidade própria. 

Isso é uma bobagem. O que ela não tem é o conhecimento político do Lula. Mas foi ministra de Minas e Energias, um sector pesado, em plena crise de energia eléctrica — herança da política boba do Fernando Henrique —, e foi Chefe da Casa Civil, uma casa política. E está com ele [Lula] todos os dias. Tem aprendido com ele tudo o que há para aprender sobre o Brasil. É evidente que sem ele não teria chance. O Serra já foi candidato a várias coisas, ela não. Então, o facto de ser apoiada pelo Lula ajuda. Não bastava o PT. O PT não tem peso suficiente para fazê-la ganhar. Quem tem é o Lula, uma figura política como nunca ocorreu no país. Para dizer a verdade, pouco ocorreu no mundo.

No vídeo em que apoia à Dilma diz: não sigam a propaganda das grandes empresas, o Brasil tem de fazer as pazes com o povo, não pode ficar só votando para os 10 ou 20 por cento de cima, e a mulher do povo é a Dilma. Acha que existem dois Brasis, essa faixa de cima que é anti-Lula e o Brasil do povo?

Acho. Tranquilamente.

E isso está a manifestar-se de novo nesta eleição?

De novo. Agora, tem a classe média, que vai para cá ou para lá, conforme a conjuntura.

A classe média que ascendeu nos últimos anos?

A que ascendeu foi a média-baixa. A média-alta, não. E essa é que tem muita raiva do Lula e não vai votar na Dilma.

Nessa faixa média alta, o Lula é frequentemente descrito como um ignorante, ou um populista.

Primeiro, não é populista porque é do povo. Populista seria um cara da elite que estivesse manipulando o povo. Ele ascendeu do povo, e foi sendo feito pelo povo.

Depois, ignorante, coisa nenhuma. O Lula sabe mais do Brasil do que ninguém. E sabe mais de economia aplicada, prática, do que ninguém. Já é candidato desde 1989. Então, na primeira derrota fez o Instituto de Cidadania, uma espécie de ONG, e convidava todos os intelectuais. Eu conhecia-o de vista, mas aí passei a ser assessora dele. Eu, uma série de economistas progressistas, filósofos, sociólogos.

Era uma espécie de academia informal?

Claro. De maneira que ele fez uma “universidade” que durou de 1989 a 2002.

Como “aluno”, como era?

Ah, brilhante, brilhante. Tem uma memória prodigiosa. E quando havia discussão académica e ele percebia que as questões estavam resvalando, não deixava. Ele vai no gume. Tem um sentido de oportunidade muito afiado, uma mente muito lógica. Isso é que é impressionante. Tem um coração popular, uma emoção popular, mas a cabeça dele é totalmente lógica. É dos homens mais inteligentes que conheci. Se não o mais.

Diria que o Lula é talvez o homem mais inteligente que conheceu?

Sem dúvida. E não apenas politicamente. É uma inteligência nata. É um génio do povo. Nós tivemos um génio do povo. Se não, não teria chegado lá. Você acha que alguém vindo de onde ele veio, com as dificuldades que teve, chega a presidente? Não. Ele é um génio do povo, mesmo, e impressiona qualquer um.

A senhora tem uma frase que é: “O Lula é o maior intelectual orgânico do Brasil.”

Os intelectuais como eu são clássicos. E ele é orgânico. Interpreta e representa organicamente o povo brasileiro.

Não tem nada a ver com um Hugo Chávez?

Não, imagina! O Chávez é de origem militar. Ao Chávez é que se podia chamar populista, embora eu o ache mais uma espécie de caudilho ilustrado.

E o Lula não tem nada de caudilho [líder carismático e autoritário]?

Não, que caudilho! Ele jamais faz apelos carismáticos. Ele fala com o povo, ou com quem quer que seja, de igual para igual. Faz piada, faz humor.

É um deles?

É um deles. Mas também quando se encontra com a classe média é como um de nós. Não tem complexo de inferioridade, nem de superioridade.

Não tem ressentimento, é isso?

De nenhuma espécie. E não gosta que fiquem elogiando ele de mais. É muito lúcido. Como a lucidez é uma característica da inteligência analítica, ele tem uma inteligência analítica poderosa. E como é do povo, eu digo que é orgânico.

A senhora escreveu que ele foi quem mais avançou na “republicanização do Brasil”. No sentido de democratização?

É. Porque está dando voz ao povo. A preocupação dele é tornar cidadãos os que estão à margem. E não com palavras, com factos. Indo até eles, dando-lhes direitos, com a preocupação de que as políticas sociais sejam para incorporação.

O Lula, entre as derrotas, fez várias viagens ao Brasil inteiro, chamadas Caravanas da Cidadania. A palavra que escolhe sempre é cidadania. Por isso digo que é republicanização. O que ele quer é que todos os brasileiros tenham cidadania, possam-se expressar, ter direitos. Quer acabar com os dois Brasis, em resumo. Quer fazer disto uma nação.

Quando chegou ao Brasil, o pensamento do antropólogo Darcy Ribeiro foi importante para si, a ideia de construir uma democracia multiracial nos trópicos. O Brasil está mais perto disso?

Está. Nunca julguei que chegasse. Mas agora acho que a democracia está consolidada no Brasil. A coisa multiracial está avançando, porque os direitos dos negros, dos índios, estão sendo reconhecidos. E os dois Brasis estão terminando. Essa nossa vergonha.

Lula é acusado de tentações autoritárias, de se apoderar da máquina do Estado, de se enfurecer com a imprensa. Há toda esta tensão.

Ele ironiza, ridiculariza, o que é outra coisa, porque é muito do estilo popular, rir dos defeitos do adversário.

Mas não há uma tentação autoritária? Quando se fala do inchaço da máquina do Estado…

Que inchaço da máquina do Estado, coisa nenhuma. Nós desmontámos o Estado do Fernando Henrique, que fez uma política neo-liberal durante oito anos, nunca fez concurso público e deixou que todo o Estado ficasse terciarizado, com gente que trabalhava sem contrato, sem carteira assinada. Isso é que inchaço. O Lula faz concurso público, a terciarização está diminuindo, está aumentando o pessoal com carteira assinada. Enfim, estão-se reconhecendo formalmente os direitos trabalhistas. E isto é autoritarismo?

É possível que em alguns cargos de confiança o Lula tenha errado, mas também o Fernando Henrique errou, botou vários em cargos de confiança que nas privatizações se revelaram pessoas sem escrúpulos. Errar em cargo de confiança acontece em qualquer governo. Agora, no Estado, não, porque o Lula fez concurso. Foi por mérito, não para inchar a máquina.

A corrupção foi o problema que prejudicou mais o governo Lula?

Foi o que prejudicou a imagem. Não propriamente dele, que tem 80 por cento de aprovação. Prejudicou os candidatos dele, como está prejudicando Dilma, prejudicou a imagem do governo.

Mas ele tirou, por exemplo, o José Dirceu [protagonista do escândalo Mensalão, em que o PT pagava a deputados uma mesada], de quem era amigo antiquíssimo. Não há nepotismo.

Todos os casos de corrupção declarada, ou objecto de inquérito público, foram demitidos.

Por exemplo, com o Berlusconi, não há dúvida nenhuma de que aquilo é um governo corrupto, porque ele é um corrupto. Agora, ninguém acusou o Lula directamente. Acusaram-no de ter fechado os olhos, mas ele não fechou olho nenhum. Podia ter mantido o José Dirceu, e dizer que era culpa de fulaninho e sicraninho, enfim daqueles que fizeram lá os “mal-feitos”.

Como podia ter mantido a Erenice, não tinha processo contra ela.

Agora, tem pêtistas que não gostaram que o PT não expulsasse esses quadros. Eu fazia parte da tendência chamada refundação. Achava que devíamos dar uma refundada e ter um código de ética mais pesado. O argumento dos outros era que seria injusto expulsar enquanto não ficasse provada a culpa.

Obviamente, não tenho a menor simpatia pelos quadros que foram acusados. Quanto mais não seja por ineficácia política. De um homem da importância de José Dirceu, que foi presidente do partido anos, e deixa o tesoureiro nomeado por ele fazer o que fez, dele é que se pode dizer que como estava preocupado com o poder esqueceu essa parte [ter mão na corrupção]. Ele pode ser acusado disso. O Lula não. Não tinha nada que ver com a máquina do partido. Lançou a Dilma, e depois é que o partido referendou. O Lula sempre teve muita autonomia em relação ao partido. Tanto que o pessoal fala que há o pêtismo e o lulismo.

Acha que há?

Há mesmo. Porque o Lula é maior que o partido. Acha que essa malta pobre que vota nele é pêtista? Coisa nenhuma. São pentecostais, a maior parte não tem partido. Acreditam no Lula. O lulismo é um fenómeno de massas. O pêtismo é um fenómeno orgânico, de um partido de esquerda que foi andando para uma espécie de centro-esquerda, social-democrata, que hoje já não existe na Europa, porque a Europa está decadente.

A Europa está decadente?

Ah, está. Puxa vida. Bota decadência, não é? Até nós.

Até nós?

Nós, portugueses [risos].

Seguimos o exemplo dos outros. O único país que seguiu menos esse exemplo foi a Suécia, que teve um período neo-liberal muito curto. Nós virámos neo-liberais. Não somos social-democratas faz horas. Nem nós, nem a Europa inteira continental. Nem a Inglaterra, nem nada.

O Lula é um social-democrata?

É. Vamos ver: social-democrata é quando você representa organicamente os trabalhadores. Ora, se há social-democrata é o Lula. Jamais foi a favor da luta armada, jamais. Sempre ficava meio chateado entre a discussão dos intelectuais e dos que vinham da igreja. O PT tem três origens: a sindical, que é a dele, a da igreja, católica, e a dos intelectuais revolucionários. Perdiam um tempo danado a discutir e a vontade dele era mandar os padres rezar e os intelectuais para a academia, e não chatearem ele [ri]. Isso ele disse uma vez para mim, rindo: “Você não tem ideia do que era!” Quando eu entrei, [o PT] já estava manso.

Nunca quis ser ministra?

Não. Não tenho temperamento para ser executiva. Fui deputada porque me pediram.

O Lula nunca a convidou?

Não. Ele conhece-me, sabe que eu sou pêlo no vento. Eu sou muito mais agressiva do que a Dilma, muito mais. Ela consegue disfarçar a raiva dela, eu não. Quando fico com raiva, fico. Digo na cara das pessoas o que acho. Eu não seria uma boa ministra. Sou uma boa assessora.

Porque diz o que pensa.

Isso. O que é importante. Alguém que não fica puxando o saco do chefe. Eu não puxo saco de ninguém. Várias vezes disse ao Lula coisas com que ele não concordava.

Por exemplo?

Por exemplo, quando ele fez a aliança com o Garotinho [ex-governador do Rio, condenado por corrupção]. Eu não votei.

Já agora, Collor de Melo e Sarney [ex-presidentes envolvidos em escândalos, que também fazem parte da base de apoio de Lula]. Sente-se confortável com estas alianças?

Eu não sigo as instruções. Se a aliança for com alguém que considero indecoroso, não voto.

É o caso de Sarney ou Collor?

Collor, sim. Sarney, nem tanto. O Sarney que conheço é o da transição. Na primeira parte do governo fez o que pôde. Depois, degringolou. E nunca mais foi candidato a nada. Acho injusto confundir o Sarney com o Collor. O Collor é uma coisa desqualificada.

Há quem critique programas como o Bolsa Família como a criação de uma rede de dependência do governo, que pode ter o efeito contrário justamente a essa autonomia dos cidadãos. O que acha disto?

Acho que é mentira. O Lula tirou 28 milhões da pobreza. Esses não são mais dependentes da Bolsa Família, porque a Bolsa Família é para os pobres. Esses 28 milhões entraram no mercado de trabalho, são assalariados, ou têm os seus pequenos negócios. O que o Lula fez foi proteger os pobres, não deixar os caras morrer de fome. Mas uma vez que ficaram acima do salário mínimo, não. Ninguém que ganhe acima do salário mínimo tem Bolsa Família. Pode ter outras.

Como economista, como vê estes programas?

Acho que é o correcto. Ao tirar da pobreza, e meter no mercado de trabalho vinte e tantos milhões, você está consolidando o mercado interno. Por isso é que a crise internacional não nos atingiu duramente. Por isso, e porque o sector externo estava bem. Tínhamos pago a dívida externa.

E Lula investiu no consumo…

É, deu crédito, além de ter dado emprego. Deu muito emprego. Mais do que prometeu. Investiu no mercado interno e deu financiamento para aquisição de bens necessários, tipo geladeira [frigorífico]. As pessoas dizem: “Ah, fica financiando geladeira…” Mas neste país quente querem que não se financie geladeira? E as pessoas comem o quê? Carne podre? Evidentemente que o que ele fez está correcto. Passámos de uma taxa de crédito de 20 e tantos por cento para 40 e tantos. O que é bom. Não é como nos países ricos, que era 120, 130, o que deu na catástrofe que deu [crise de 2008]. Aqui não tem alavancagem do crédito. Não tem incumprimento alto, inclusive, ou seja, não pagar a prestação que deve. Os devedores pagam, e quem mais paga são os pobres, exactamente. Essa é outra ideia, que pobre não paga. É mentira. Quem não paga é a classe média-alta, que usa cartão de crédito, cheque especial, vai-se endividando e endividando. O povo não faz isso. Nem tem cartão de crédito nem cheque especial. Tem banco, isso sim. Foi uma coisa importante.

O Lula não fez só o Bolsa Família. Fez O Luz para Todos, fez a Bancarização, que é você ter direito, mesmo sem carteira de trabalho, a poder ir ao banco e ter crédito. Essas coisas que implicam integrar o cidadão na sociedade.

O que é está em jogo nesta eleição, de facto? É uma eleição importante? 

É importante. É a continuidade deste esforço em todos os sentidos. Desde a política externa autónoma, que é fundamental. As pessoas não se dão conta, porque aqui ninguém sabe nada de política externa, então a classe média nem fala no assunto.

Uma das críticas maiores ao governo Lula é o facto dele falar no tom em que fala com Chávez, com o regime cubano, com Ahmadinejad.

Isso é tudo uma bobagem, porque tem de falar com todo o mundo. Lula também fala, e é amigo, do presidente dos Estados Unidos. Só que não se submete.

Mas a questão não é falar, é…

É falar sim, porque ele não fez nada que não fosse de acordo com as regras da nossa constituição e as regras internacionais.

A questão que algumas pessoas colocam é se faz sentido um presidente como Lula ir abraçar os irmãos Castro num momento em que estão dissidentes a morrer e a serem mortos.

Faz sentido como faz sentido ir abraçar qualquer um. Então eu pergunto: faz sentido o governo dos Estados Unidos ter sustentado com dinheiro, com apoio da CIA, todos os golpes de Estado da América Latina?! Isso ninguém critica! Aposto que essa gente da classe média nunca falou nos golpes latino-americanos financiados pelos Estados Unidos e pela CIA!

Certo. Mas a pergunta…

Então?! Nós não estamos financiando golpe de Estado! Só estamos indo a governos legítimos. Não estou falando democráticos, estou falando legítimos.

Como alguém que acredita profundamente da democracia não a incomoda…

Não me incomoda nada! O Oriente Médio não tem democracia nenhuma, e não terá tão cedo. Há tanta possibilidade de ter democracia no Irão, no Iraque, naquela república petroleira que sustenta tudo…

A Arábia Saudita. Mas eu não estava a falar do Oriente Médio…

Como não? Uma das críticas maiores foi ele ter falado com o Irão. Como não está falando no Oriente Médio, se foi aí que a imprensa espirrou? O Castro é periódico. Todo o mundo sabe que ele é amigo do Castro de Cuba.

Mas estou a perguntar-lhe a si.

Acho que ele tem todo o direito. Eu também não teria nenhum inconveniente se fosse a Cuba — não tenho nada que fazer lá, de momento, nem tive, no passado — em cumprimentar o velho Castro, imagina, que é uma figura histórica totalmente relevante. Agora de repente o Castro não tem importância nenhuma? Eu teria inconveniente era em cumprimentar o primeiro-ministro da Itália [Berlusconi], esse sim, que é um ladrão.

No caso da Itália, não é só por causa da corrupção. É por causa do neo-fascismo, que Berlusconi promoveu, e de que é aliado. O que está acontecendo na Itália é gravíssimo, voltar o fascismo à Itália como partido legal.

Mas se cumprimentasse Castro, provavelmente também lhe diria o que pensa, não? 

Sem dúvida nenhuma. Ia dizer: “Sei que agora não é você quem manda, é o Raul, mas porque é que não libera logo esses caras, e pára de ter uma praga em cima de você?” Eu diria. E ele diria: “Porque não, nhim-nhim-nhim, nhim-nhim-nhim, lá os argumentos dele. Digo sempre o que penso. Nos Estados Unidos também dizia, quando estava lá.

A senhora acha que isso não teve custos políticos para Lula?

Custos políticos não teve, porque as pessoas que dizem isso nunca votaram no Lula.

Há pessoas que votaram nele e dizem isso.

Não senhora. Não é pela política externa. Não é verdade. Podem ter-te dito que votaram, mas é mentira. A política externa [de Lula] não é uma crítica da esquerda. Ao contrário. Isso é uma crítica da direita.

Concentrando-nos na América Latina, a minha questão era se faz sentido uma figura como o Lula, justamente pelo que transporta de inspiração, de exemplo…

Faz todo o sentido! Não é uma política de autonomia? É! Cuba está ou não cercada pelo boicote económico americano? Está. Um dos problemas económicos deles é esse.

Justamente. Uma palavra de Lula aí não teria força em relação à repressão política, dos prisioneiros?

O Lula não se vai meter nas decisões de cada país. Vai lá para mostrar simpatia pelo facto de que eles estão sendo cercados. E deve ter falado [na questão dos presos políticos]. Porque ele disse-me que isso foi tocado.

É?

Mas amigavelmente. Não vai agora se meter na política dos outros. Chama-se política de não intervenção. Ninguém se intromete. Se fosse à Itália provavelmente também cumprimentaria o Berlusconi. Só que não foi, graças a Deus. Acho que é um dos poucos países onde não foi. Não deve ter sido por acaso. Foi à Alemanha, a França, e também não deve morrer de amores pela Merkel, ou por aquele francês, que é um autoritário de direita, o Sarkozy. E daí? Por acaso ele critica o Sarkozy em público, ou vai lá peruar sobre os direitos dos franceses? Isso não se usa. Isso não é diplomacia. Eu faria, mas o Lula é um estadista, representa o estado brasileiro.

Outra coisa com que a direita não concorda é a política Sul-Sul, e é o caso do Serra, que hoje é um homem de direita.

Acha que ele é um homem de direita?

Hoje, virou. Porque o partido dele virou a direita possível. Dado que a direita clássica está encolhendo no Brasil, ele foi-se estendendo para a direita. Então o partido dele hoje, no máximo, pode-se chamar de centro-direita. Como, no máximo, o nosso pode ser chamado de centro-esquerda. Você tem o centro dominando o espectro ideológico. Ora vai para a esquerda, em certas eleições. Ora vai para a direita.

MEMÓRIAS DE PORTUGAL


Falemos um pouco do seu percurso antes de vir para o Brasil. O seu pai acolheu refugiados da Guerra Civil de Espanha.

É verdade [ri].

Era anarquista, o meu velho. Nasci em Anadia mas vim com um mês para Lisboa. Então sou alfacinha. Estive em Sacavém, nas Avenidas Novas, perto lá da Igreja de Fátima…

Avenida de Berna.

Isso. Estive em vários lugares.

O seu pai era comerciante.

Era. E essa frase de que me lembro [dos refugiados] era quando estávamos num bairro popular, de maneira que não se notava tanto. Se enfiasse anarquistas em bairro de classe média tinha-se ferrado. O pessoal estava saindo, estavam perdendo a guerra, e Lisboa era um lugar de passagem de todo o pessoal que estava sendo perseguido, judeu, anarquista. E tinha sempre vários segmentos da população que ajudavam. Aí cresci no meio do debate. O meu tio era comunista e o meu pai anarquista. Então, você imagina, no caso da Catalunha, em que a briga entre anarquistas e comunistas foi feroz, como é que se discutia.

Cresceu a ver esses refugiados em casa.

Quanto tinha sete, oito anos. Quando terminou a guerra, foram à vida deles. Depois teve a II Guerra Mundial. E aí é que eu cresci, no sentido em que aos 12 anos caiu Paris. Foi uma tristeza geral. Me lembro de nós todos em torno da BBC, ouvindo a notícia, chorando. Depois a fronteira russa, a queda de Leninegrado, que foi uma brutalidade. E finalmente no dia D, a gente começou a se animar. A guerra terminou quando eu tinha 15 anos. E venho para o Brasil em 1954. Vim casada, grávida da minha filha mais velha e matemática.

E veio porquê?

Ah, porque aquilo ali não dava.

Por razões políticas?

Ah, sim. Não havia emprego para gente como nós, por causa da ficha política.

Era comunista?

Não. Dado que tinha um pai anarquista, uma mãe da esquerda católica e um tio comunista, eu era progressista, digamos. Naquela altura até era mais de uma esquerda católica. Tinha amigos comunistas, anarquistas. Aqui, quando cheguei, também tinha trotskistas, mas isso não me lembro em Portugal. Aqui tinha muito intelectual ilustre que era trotskista. Tinha vários salões intelectuais: o dos comunistas, o dos trotskistas, e o da esquerda católica. E eu frequentava os três, para variar. Era muito estimulante.

Apesar de que, como morreu logo o Vargas, ficou um período meio brabo. Até me lembro de pensar: “Puxa, onde eu vim amarrar o meu cavalo. Fui em busca de democracia e pego um golpe pela cara.” Mas depois melhorou. E com JK [Juscelino Kubitschek] ficou aquela alegria. Aí, me naturalizei brasileira e fui fazer o curso de Economia. Já tinha 27 anos.

Depois atravessou toda a ditadura brasileira.

Menos um período de cinco anos, em que estive no Chile. Porque aqui estava muito difícil.

Não se cruzou com Serra [que esteve exilado no Chile]?

Claro que cruzei.

Então é lá que se encontram.

Claro. E foi lá que escrevemos o nosso artigo contra o “milagre económico” [brasileiro]. Depois eu voltei em 1973, fiz concurso para Campinas, e fiquei na ponte aérea Rio-Campinas. Dava parte das aulas lá e parte cá. Ajudei a formar o mestrado de Campinas, o doutoramento. Entrei pesado na vida académica. Foi bom ter feito matemática, porque o meu catedrático não tinha nenhuma noção de matemática. E foi assim que ele me indicou para auxiliar, depois fiz os concursos todos.

Houve um momento em que passou a sentir-se brasileira? Um clique?

Houve. O JK [Juscelino Kubitschek]. Trabalhei no Plano de Metas dele. Era uma tamanha alegria que você achava que o país estava indo para a frente. Paradoxalmente, eles não trataram da questão agrária, e também o salário mínimo não foi nenhuma maravilha, a partir de 1958 começou a cair, por causa da inflacção. A inflacção realmente é uma praga. Sou uma das poucas economistas de esquerda que é contra a inflacção. Os economistas de esquerda acham que a inflacção não faz diferença. Faz muita diferença. Para quem? Para os pobres. Para os ricos não faz diferença nenhuma.

Os brasileiros ficaram traumatizados com a inflacção, não é? 

Foram décadas. É um país classicamente inflaccionário. Esta é a primeira vez que não. E isso começou, diga-se a verdade, no Fernando Henrique.

O que é que acha que o Brasil lhe deu?

Inicialmente, susto [ri]. Uma pessoa chegar aqui, mata-se o presidente e fica tudo imerso… Susto. E como aqui o pessoal é meio inconsciente, a esquerda, mesmo quando era ilegal, vivia batendo papo nos botequins. E eu dizia [sussurra]:

Escuta, aqui não tem PIDE?”

PIDE?”

Sim, polícia política.”

Ah, não sei, deve ter, mas a gente está aqui num bar.”

Ué, mas um bar é uma coisa aberta!

[risos] Eu ficava espantadíssima. Não tinha aquela clima português em que você olhava para a esquerda e para a direita até para ler um jornal. Então, essa foi a primeira coisa: relaxei mais. Em segundo lugar, a coisa da alegria, de ver uma civilização brotar, o que é muito bacana. Ver música, teatro… Culturalmente era muito rico. Aqui, essa parte, era liberal. Só na ditadura propriamente dita é que censuraram as manifestações culturais.

Na ditadura, fiquei no Brasil de 1964 a 68, quando ainda tinha muita crítica. Em 68 é que eles endureceram. E por sorte eu fui [para o exílio] antes. Aí caiu gente para burro, intervieram nas universidades. Se eu tivesse aqui teria sido expulsa.

Eu tava lá [Chile] e também foi uma alegria.

Conheceu Salvador Allende?

Conheci. Conheci todo o mundo. Até pedi uma licença — porque estava a fazer um doutoramento em Paris — e fui trabalhar com o governo. Eu e o Serra.

Com o governo Allende?

[Acena] Fomos os dois colegas no ministério da Economia. Como tinha de voltar para tomar posse na universidade, voltei em Março de 1973. E o golpe [de Pinochet] foi no Outono [véspera de Outono no hemisfério norte. No sul, véspera de Primavera (mboaba)]. Eu tinha deixado a minha filha e o meu filho, porque pretendia fazer outra licença. Mas aí vi que não dava, porque já tinha havido o diabo, trouxe o menino, e ela que tinha casado com um chileno ficou lá. Aí foi uma coisa muito angustiante. Depois quando ia para um seminário no México, prenderam-me no aeroporto aqui no Brasil e fiquei lá num desses aparelhos de repressão 48 horas. Assustador. Não teve tortura. Ameaça, ficar nua, fotografada de todos os lado, não poder comer, não poder beber, não poder fumar, e aquelas celas isoladas.

Sempre fumou assim sem parar?

Sempre, desde os 14 anos. Fumo dois maços. Claro, em entrevista fico nervosa e fumo mais [ri].

Então o Brasil me deu maturidade e uma experiência de vida rica.

E Portugal para si é o quê?

É remoto. Hoje não tenho mais nenhuma ligação íntima. Tenho uns primos vagos na Anadia. A Maria de Lourdes Pintasilgo, que era minha colega, morreu.

Foi sua colega onde?

No liceu Filipa de Lencastre, e depois No Instituto Superior Técnico, onde entrei com 16 anos. Estive com ela várias vezes, quando ela vinha aqui eu sempre a via. Essa era uma mulher fantástica. A verdade é que nós, as mulheres portuguesas, somos fantásticas. A coisa das Marias portuguesas é um facto. São mais lutadoras que os homens. Eu acho. Desde a Padeira de Aljubarrota para cá.

No tempo do Salazar era uma apagada e vil tristeza. Agora, como eu tinha sido presa aqui na véspera da revolução dos cravos e me disseram que me cortavam a nacionalidade se eu saísse, fiquei com medo e não saí do Brasil [nos dois anos a seguir ao 25 de Abril]. Depois fui, e talvez tenha ido numa das últimas marchas com os cravos, com os capitães e o velho comuna, que acho que já morreu…

Álvaro Cunhal.

O Álvaro já morreu, não já? O velho Cunhal. Descemos a Avenida da Liberdade com os cravos na mão. Foi simpático. Mas não é um país estimulante como o Brasil. O Brasil é um país imenso e muito diversificado. Lá é muito pequenininho.

24.10.2010 - 08:22 Por Alexandra Lucas Coelho, no Rio de Janeiro

[Legenda da foto da publicação originalAo longo de décadas, Maria da Conceição Tavares formou gerações de economistas e líderes políticos, incluindo Lula (Pedro Vilela/AFP)]

Amanhã: Entrevista com Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, apoiante de José Serra: “Lula comprou o voto do povo”.

http://www.publico.pt/Mundo/lula-e-um-genio-do-povo_1462504?all=1

Reproduzido por Carta Capital em 29.10.2010

[Legenda da foto na Carta Capital: Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares, figura nacional no Brasil, vota em Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par. Foto: Marcelo Carnaval]

http://www.cartacapital.com.br/politica/%E2%80%9Clula-e-um-genio-do-povo%E2%80%9D/

Mais sobre Marcelo Carnaval no site da ABI

terça-feira, 29 de maio de 2012

"Não se submeter. Ser insubmissos. É assim que se constrói cidadania"



"Não se submeter. Ser insubmissos. Não calar a boca diante da manipulação. É assim que se constrói cidadania. Cidadania se constrói com insubmissão. Cidadania se constrói com rebeldia. Com capacidade de enfrentar. Com capacidade de se levantar. De não aceitar o que é errado.

"De não aceitar, por exemplo, a manipulação.

"No Brasil, hoje em dia, existe um jornalismo que, como as antigas farmácias, é de manipulação.

"Não se pode aceitar isso. Temos de exigir bom jornalismo.

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"Eu acho engraçado quando eles dizem 'imprensa chapa branca'.

"Pensa bem. Quem de vocês ganha dinheiro com isso? Vocês perdem noites. Perdem o contato com a família. Se dedicam a algo que não tem um retorno financeiro, material. E vocês fazem isso, porque isso é cidadania.

"Só que eles não conseguem entender isso. Porque eles são acostumados a ter retorno material por tudo que falam.

"Não me meçam pelo seu método!

"Eles gostam de medir o povo pelo seu método. Se o método deles é ter retorno material, eles acham que todo mundo tem retorno material.

domingo, 27 de maio de 2012

Muito além do Cidadão Kane



Publicado em 03/05/2012 por rafa1985polo

Além do Cidadão Kane é um documentário produzido pela BBC de Londres - proibido no Brasil desde a estréia, em 1993, por decisão judicial - que trata das relações sombrias entre a Rede Globo de Televisão, na pessoa de Roberto Marinho, com o cenário político brasileiro.

- Os cortes e manipulações efetuados na edição do último debate entre Luiz Inácio da Silva e Fernando Collor de Mello, que influenciaram a eleição de 1989.

- Apoio a ditadura militar e censura a artistas, como Chico Buarque que por anos foi proibido de ter seu nome divulgado na emissora.

- Criação de mitos culturalmente questionáveis, veiculação de notícias frívolas e alienação humana.

- Depoimentos de Leonel Brizola, Chico Buarque, Washington Olivetto, entre outros jornalistas, historiadores e estudiosos da sociedade brasileira.

"Todo brasileiro deveria ver Além do Cidadão Kane"

BBC de Londres
Produtor: Simon Hartog

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terça-feira, 20 de março de 2012

Metrô tucano de SP - o povo fala



Enviado por SpressoSP em 15/03/2012

Reportagem realizada para o SPressoSP mostra a insatisfação das pessoas com o metrô na cidade de São Paulo.
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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A Vale vai entrar nos trilhos

Saiu hoje no Valor Econômico que a Vale pretende construir uma fábrica de trilhos em Governador Valadares, Minas.

A intenção é produzir 500 mil toneladas/ano de trilhos para abastecer suas próprias ferrovias e o mercado em geral. Atualmente, todos os trilhos utilizados no Brasil são importados, pois, em 1996, a CSN foi privatizada e desativou o lamidador destinado a sua produção, uma vez que não tinha para quem vender. Naquele época, governo FHC, o país não implantava, só sucateava ferrovias.

O mais irônico é que os trilhos, feitos na China e na Polônia com minério exportado pela Vale são comprados aqui pela Vale – a maior operadora ferroviária do país, com 10 mil quilometros de linhas -  e pela Valec, subsidiária da Vale que ficou fora da privatização. Em 2009 e 2010, importamos US$ 600 milhões em trilhos e, no início deste ano, a Valec lançou um edital para comprar R$ 807,2 milhões.

O governo federal - tanto Lula como Dilma - tem incentivado a montagem de uma nova fábrica de trilhos no Brasil, mas o país não pode ficar esperando eternamente que os empresários se disponham a isso e, aí, tem de importar ou parar o programa destinado a mais que dobrar a rede ferroviária nacional. Temos hoje, em andamento, 3,5 mil quilômetros de ferrovias em obras.

E a Vale - do tucano Agnelli - que comprou na Ásia os navios para transportar nosso ferro, também pretendia comprar lá os trilhos  que permitem levar o minério até os porões de cargas nos portos.
  • de Carlos Eduardo Campanhã
    data 10 de agosto de 2011 18:08
    assunto A Vale vai entrar nos trilhos
Sobre o "caso Vale"

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Dependesse do Estadão, o Brasil nem faria aço

O Estadão, hoje, tem um daqueles momentos de sinceridade antológicos.

É o editorial intitulado “A Vale ainda não entrou na produção de aço, felizmente“.

Depois de algumas lágrimas por Roger Agnelli, o jornalão começa a entregar o seu pensamento colonial.

Por ele, o Brasil ainda seria um pequeno país atrasado, que nem mesmo produziria aço.

Comemora o fato de não aparecer um sócio capaz de colocar dinheiro no projeto da Cia. Siderúrgica de Ubu (CSU) que a Vale pretende instalar no Espírito Santo.

Como se sabe, só há dinheiro de capitalistas para investir em especulação com dólar, uma coisa extremamente mais útil ao país do que produzir aço.

Produzir aço, no Brasil, é algo supérfluo e antieconômico.

Pelo  Estadão, o Brasil só exportaria minério de ferro.

Aquela tal de Companhia Siderúrgica Nacional – esqueça os livros de história que dizem que ela foi fundamental para a industrialização do país – não deve ter passado de um arroubo populista de Vargas.

Afinal, diz o porta-voz de nossas oligarquias, nossas jazidas são “praticamente inesgotáveis”.

E desfaz da óbvia vantagem de podermos fazer aço perto das “jazidas praticamente inesgotáveis” porque  com “o uso de navios gigantescos, se tem reduzido muito nos últimos anos (o custo de se transportar milhões e milhões de toneladas de minério bruto), especialmente quando esses navios podem retornar transportando petróleo”.

Viram que beleza? Exportamos mais ferro e importamos mais petróleo. Só falta sugerir que deixemos lá este “petróleo anti-econômico” do pré-sal.

Evidente que ninguém quer que o Brasil deixe de exportar minério. Mas o que temos é de resolver os problemas estruturais que nos impedem de avançarmos, como poderíamos, na competividade em matéria de siderurgia.

Mas para que resolver problemas, se podemos vender nosso minério, fresquinho, arrancado do chão? O buraco que eles deixam, a riqueza que se vai, nada disso é importante. Importante são os lucros rápidos e de baixo investimento que fazem adorável a nossa elite colonial.

É o modo Joaquim Silvério dos Reis de pensar o Brasil.

Brizola Neto | O Tijolaço | 21 Jul. 2011

http://www.tijolaco.com/dependesse-do-estadao-o-brasil-nem-faria-aco/

Sobre o "caso Vale"

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ariano Suassuna: um espetáculo de lucidez


Ariano Suassuna impressiona tanto pela autenticidade  como pela simplicidade ao transpor a barreira da formalidade que muitas vezes imagina-se que a cultura pressupõe.

Ariano também não se esquiva de questões políticas, sendo uma exceção dentro de um universo de intelectuais e artistas que foram inclusive imprescindíveis no processo de redemocratização, mas hoje preferem se esquivar. Uma esquiva preocupante e conveniente, diga-se. Na verdade, todos os intelectuais e artistas de projeção deveriam ser mais claros nos seus posicionamentos em relação às questões cruciais e de interesse coletivo da nação. Ariano Suassuna, paraibano, figura no grupo dos que não sobem no muro, e esta é mais uma dentre tantas razões para que não deixemos de destacá-lo.

No vídeo a seguir, o escritor fala de suas origens e da importância da cultura popular. Em seguida, o ex-presidente Lula faz algumas considerações sobre a relação que tem com Ariano. Assista:

Com Lula na platéia, Ariano Suassuna emociona e faz rir em 'Aula Espetáculo', by Pragmatismo Politico

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O vôo da Juriti


O Vôo da Juriti

(Aldo Justo / Paulo Tovar)

Meu coração tem um desejo imenso
De ver o dia nascer pelo avesso

Meu coração mão de pilão
Tem o jeito do avoar

Bota água na bacia
Que a cara do dia
Está querendo vir

Tira a tranca da janela
Que de manhã cedo eu quero ver
O vôo da juriti




terça-feira, 12 de julho de 2011

Jornalista Cristina Guimarães: “Se dependesse da Globo, eu estaria morta”

“Se dependesse da TV Globo, eu estaria morta”. A declaração da jornalista Cristina Guimarães – vencedora do Prêmio Esso em 2001, junto com Tim Lopes, pela série ‘Feira das drogas’ – promete causar polêmica e agitar os bastidores do caso que ficou conhecido em todo o país. De volta ao Brasil após passar oito anos se escondendo de traficantes da Rocinha, que ameaçavam matá-la depois de reportagem veiculada no Jornal Nacional, ela conta em livro como a TV Globo lhe virou as costas e garante que o jornalista poderia estar vivo se a emissora tivesse dado atenção às ameaças recebidas.

De acordo com Cristina, sete meses antes de Tim ser morto por traficantes do Complexo do Alemão, ela entrou com uma ação judicial de rescisão indireta, na qual reclamava da falta de segurança para jornalistas da emissora. As denúncias integram o livro que está sendo escrito por Cristina e deve ser lançado nos Estados Unidos, no início do próximo ano. A obra, segundo a jornalista e publicitária, também deve virar filme.

“Não dava para escrever meu livro no Brasil. Aqui a Globo ainda tem uma influência muito forte e a obra poderia ser abafada de alguma maneira. Com o apoio do governo americano, fica mais fácil lançar nos EUA”, pondera.

O que motivou as suas denúncias de omissão contra a TV Globo na Justiça?

Trabalhei durante 12 anos na TV Globo. Em 2001, estava fazendo produção para o Jornal Nacional junto com o Tim Lopes. Produzíamos as matérias de jornalismo investigativo do telejornal. Quando o Tim trouxe o material da feira de drogas ao ar livre na Favela da Grota (Complexo do Alemão), a chefia de reportagem me chamou e perguntou se eu conhecia outras feiras deste tipo. Respondi que na Rocinha e na Mangueira o mesmo acontecia e a chefia do JN me pediu para fazer imagens lá. Fui três vezes à Rocinha e duas à Mangueira, para conseguir um bom material. Na primeira vez que estive nos dois lugares, reclamaram que as imagens não estavam boas e exigiram que eu voltasse até o material estar com boa qualidade. O grande problema começou um mês depois da exibição da série. Comecei a ser duramente ameaçada por traficantes, sem nenhum respaldo da emissora, e decidi ingressar com uma ação judicial pedindo segurança.

Quando começaram as ameaças de traficantes?

Por volta de um mês depois da exibição das matérias, começaram a me telefonar de um orelhão que fica dentro da Favela da Rocinha me chamando de ‘Dona Ferrada’ e dizendo que me pegariam. Diziam também que eu não escaparia, era questão de tempo. Diante das constantes ligações, conversei com a chefia do JN e pedi proteção. Fui ignorada. Dias depois, sequestraram um produtor do Esporte Espetacular, o levaram para um barraco na Rocinha. Bateram muito no coitado. Os traficantes queriam saber se ele sabia quem tinha ido à favela fazer as imagens, mas o produtor não sabia. Era de uma editoria diferente da minha e realmente não sabia. O que me assustou foi que a TV Globo não me falou nada. Eu estava voltando de um mês de férias e soube do episódio pela Folha de S. Paulo. Quiseram abafar as ameaças e a ligação entre os dois casos: as ameaças feitas contra mim e o sequestro do Carlos Alberto de Carvalho. O episódio me deixou ainda mais assustada, porque aí eu tive a certeza de que não podia contar com a emissora para nada. Procurei a polícia, registrei o caso na 10ª DP (Gávea), mas acho que sentaram em cima do processo. Na verdade, devem estar esperando para ouvir a outra parte – os traficantes. (risos).

Então, com a denúncia à polícia as ameaças não pararam?

Muito pelo contrário. A coisa corria solta e ninguém fazia absolutamente nada. Mas o que tirou meu sono foi quando prenderam um garoto da Rocinha que pagava propina a um coronel. Fui cobrir o caso e me desesperei. Ao encontrar o moleque detido, ele olhou bem para mim e disse ‘É, tia! Eu tô ferrado, mas tu também tá. Tá todo mundo atrás de você lá na Rocinha. Tua cabeça tá valendo R$ 20 mil’. Naquele momento, tomei a dimensão da situação em que eu me encontrava. Ele descreveu a roupa que eu usava quando ia à favela fazer as imagens. Todo o meu disfarce: meu boné surrado, a bermuda, a cor da camiseta.

Com o processo você conseguiu desligamento da TV Globo?

Sim. Por meio da ação judicial que emplaquei no Ministério do Trabalho, meu vínculo com a TV Globo acabou. Sinceramente, hoje eu tenho mais medo da TV Globo do que dos traficantes. O traficante pode te ameaçar e ser violento. No entanto, ele avisa e depois cumpre. A TV Globo é traiçoeira. Enquanto você é subordinado e faz o que te pedem, você é bonzinho. Já quando você questiona os riscos que ela te impõe e se nega a fazer alguma coisa por temer pela sua própria vida, você é tachado de louco. Traficantes me parecem mais confiáveis.

Você acha que estaria morta se não tivesse travado uma briga judicial com a TV Globo para não ser mais obrigada a produzir matérias que colocassem sua vida em jogo?

Já estaria morta há muito tempo. A Globo não quis saber se eu corria risco de vida. Os meus chefes diziam que as ameaças que eu recebia por telefone eram coisas da minha cabeça. Não me arrependo de ter largado a Globo para trás. A minha vida vale muito mais do que R$ 3.100, que era o meu salário em 2001.

A morte do Tim poderia ter sido evitada pela emissora?

Sem dúvida nenhuma. Eu falei sobre os riscos que estávamos correndo sete meses antes de os traficantes do Alemão matarem o Tim Lopes. Eu implorei por atenção a estas ameaças e o que fez a TV Globo? Ignorou tudo. Sete meses depois, eles pegaram o Tim. Na ocasião do Prêmio Esso, antes de o Tim ser morto, eu liguei para ele e o alertei sobre os riscos de ter exposto seu rosto nos jornais. Na nossa profissão, é preciso ter muito cuidado para mostrar a cara. É muita ingenuidade achar que traficante não assiste TV e não lê jornal.

Procurada pela reportagem do Jornal do Brasil, a assessoria da Rede Globo não retornou às solicitações para esclarecimento das acusações desta matéria.

por Maria Luisa de Melo, no Jornal do Brasil

sugestão de Urariano Motta ao Viomundo | 12 Jul. 2011 às 16:03

http://www.viomundo.com.br/denuncias/jornalista-cristina-guimaraes-se-dependesse-da-globo-eu-estaria-morta.html