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domingo, 22 de julho de 2012

“O Lula sabe mais do Brasil do que ninguém”

Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares,
 figura nacional no Brasil, vota em Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par.
Foto: Marcelo Carnaval

Maria da Conceição Tavares, professora tanto de José Serra quanto de Dilma Roussef, amiga de ambos (que havia reunido em seu aniversário meses antes), considera ambos “brilhantes” — e Serra mais confiável do que FHC — traça perfis e um panorama a ser guardado e estudado vez por outra.

A entrevista realizada por  Alexandra Lucas Coelho foi publicada em 24 Out. 2010 no site do jornal “Público” e reproduzida em 29 Out. 2010 no site da revista “Carta Capital”.


Entrevista a Maria da Conceição Tavares

“Lula é um génio do povo”

24.10.2010 - 08:22 Por Alexandra Lucas Coelho, no Rio de Janeiro

Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares, figura nacional no Brasil, vota Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par.

Maria da Conceição Tavares é daquelas figuras “maiores que a vida”. Aos 80 anos, a fumar ininterruptamente na sua casa do bairro carioca Cosme Velho, tem algo de Indira Gandhi ou Churchill. Voz e riso de trovão, olhar agudo, resposta incisiva. Respeitada em todo o espectro político como economista e pensadora, é uma das grandes conselheiras do PT. Nunca quis ser ministra porque diz tudo o que pensa.

Portuguesa, nascida em Anadia, crescida em Lisboa, filha de um anarquista que alojava refugiados da Guerra Civil de Espanha, veio casada e grávida para o Brasil, aos 21 anos, por causa de Salazar. Desde então, ao longo de 60 anos, formou gerações de economistas e líderes políticos, incluindo Lula.

A senhora deve ser a única pessoa no Brasil que consegue juntar no aniversário dos seus 80 anos….

Os dois candidatos à presidência da República! [ri-se]

… Dilma Rousseff e José Serra.

Mas o clima estava muito bom. Eles nunca se trataram mal, nem nada. Eram pessoas civilizadas, que se tratavam bem. A campanha é que despertou essa trapalhada. A noite [do aniversário, 24 de Abril] correu perfeita. Nem se discutiu política. Foi uma festa.

Eles sempre tiveram boa relação?

Não que sejam amigos pessoais, como eu sou amiga dos dois. Mas sempre tiveram boa relação. O Serra era um sujeito civilizado. Não sei o que deu na cabeça dele agora.

Conhece-o muito bem…

Desde 1968.

… se tivesse de explicar quem é José Serra, o que diria?

Um bom economista. Ambos éramos do PMDB, a frente democrática contra a ditadura. E ele saiu para fundar, com o [Mário] Covas e o Fernando Henrique [Cardoso], o PSDB, uma espécie de ala esquerda. Muita gente não acompanhou isso. Eu, por exemplo, não fui porque não faço muita fé no Fernando Henrique, que sempre foi meio dúbio, trapalhão. O Covas é que era o homem importante. Morreu. E aí… A partir do momento em que Fernando Henrique foi para o poder, o Serra manteve a posição dele como economista contra a política neoliberal.

Porque é que acha o Fernando Henrique “meio dúbio”?

Diz uma coisa para agradar a uns e outra para agradar a outros. Não fazia política, mas era um político na academia. E o Serra não, sempre foi muito “straight”, muito direito.

Confiaria mais no Serra que no Fernando Henrique?

Sem dúvida [ri]. E o primeiro governo [de Fernando Henrique] mostrou isso. Porque aí o Serra foi ministro de Planejamento contra a política neo-liberal do Fernando Henrique. Depois foi um bom ministro da saúde. Não havia nada nele que demonstrasse que ia ter uma mudança assim tão brusca. Mesmo quando foi candidato contra o Lula foi uma campanha normal. Ele sempre respeitou o Lula.

Mas acha que Serra mudou?

Mudou. Por razões de interesse político.

Como é que essa mudança se manifesta?

Na arrogância, na agressão. Ele não era assim.

Mas na segunda volta quem passou ao ataque foi Dilma.

Mas não foi ataque pessoal, xingando ele. Foi atacando o governo anterior [de Fernando Henrique]. E ele não se defendeu.

Depois [a campanha] foi piorando. E agora piorou de vez.

Como vê o incidente em que Serra acusou o PT de ser nazi, ao agredirem-no com um rolo de papel?

Ah, são jovens na rua. Mesmo que sejam pêtistas não tem a ver com o partido em geral. Essa mania de chamar um partido de nazi, acho de maluco, num país democrático como é hoje o Brasil. A gente está extremando o argumento. O Serra está muito agressivo. É verdade que essa deve ser a última oportunidade, mas parece que lhe bateu o desespero.

Mas não acha que Dilma mudou de atitude também, ficou mais agressiva?

Claro. Mas é para responder. Defender a honra dela. Ele diz que ela é mentirosa, que disse isto e depois aquilo. Diz que ela abriga a corrupção, que é dela a culpa da Erenice [Guerra, ex-braço direito de Dilma, acusada de corrupção], que todos os problemas do Brasil são culpa dela. Ela está mais agressiva no tom, inclusive mais assertiva. Mas não está insultando, dizendo que ele é ladrão.

De qualquer maneira, [a campanha] degringolou. Passou a ser um debate agressivo e vazio. Conheceu Dilma nos anos 80, sua aluna na Unicamp. Como a pode apresentar?

É uma moça que sempre fez política, como o Serra. Fez política nos partidos radicais nos anos 70, ficou presa muitos anos, teve um comportamento fantástico na prisão, é uma mulher de muita coragem, de nervo. Ela não se desmorona à toa.

Em 80 veio para Campinas, para o doutoramento. Era brilhante. Brilhantes, eles são os dois.

Serra e Dilma?

É. Ambos são bons economistas. Isso é que irrita. Podiam estar falando de coisas importantes para o Brasil.

Portanto, em termos de economia, não fica preocupada com nenhum dos dois?

Não, não fico. Quero dizer, com o Serra fico, em termos de política. Porque ele virou muito conservador e é frontalmente contra a política externa do Brasil, essa política de autonomia. Ele não é a favor das relações Sul-Sul. Preferia que a gente mantivesse a relação Norte-Sul, mais estreita com os Estados Unidos, o que acho um erro. E ele é muito fiscalista. Tanto, que o que está dizendo é contraditório. É a favor do corte do gasto público, mas diz que vai dar não sei quantos mil de salário mínimo, e para os aposentados. Está fazendo promessas demagógicas, o que não é nada o estilo dele.

Existe a ideia de que a Dilma é uma construção do Lula, alguém que não tem personalidade própria. 

Isso é uma bobagem. O que ela não tem é o conhecimento político do Lula. Mas foi ministra de Minas e Energias, um sector pesado, em plena crise de energia eléctrica — herança da política boba do Fernando Henrique —, e foi Chefe da Casa Civil, uma casa política. E está com ele [Lula] todos os dias. Tem aprendido com ele tudo o que há para aprender sobre o Brasil. É evidente que sem ele não teria chance. O Serra já foi candidato a várias coisas, ela não. Então, o facto de ser apoiada pelo Lula ajuda. Não bastava o PT. O PT não tem peso suficiente para fazê-la ganhar. Quem tem é o Lula, uma figura política como nunca ocorreu no país. Para dizer a verdade, pouco ocorreu no mundo.

No vídeo em que apoia à Dilma diz: não sigam a propaganda das grandes empresas, o Brasil tem de fazer as pazes com o povo, não pode ficar só votando para os 10 ou 20 por cento de cima, e a mulher do povo é a Dilma. Acha que existem dois Brasis, essa faixa de cima que é anti-Lula e o Brasil do povo?

Acho. Tranquilamente.

E isso está a manifestar-se de novo nesta eleição?

De novo. Agora, tem a classe média, que vai para cá ou para lá, conforme a conjuntura.

A classe média que ascendeu nos últimos anos?

A que ascendeu foi a média-baixa. A média-alta, não. E essa é que tem muita raiva do Lula e não vai votar na Dilma.

Nessa faixa média alta, o Lula é frequentemente descrito como um ignorante, ou um populista.

Primeiro, não é populista porque é do povo. Populista seria um cara da elite que estivesse manipulando o povo. Ele ascendeu do povo, e foi sendo feito pelo povo.

Depois, ignorante, coisa nenhuma. O Lula sabe mais do Brasil do que ninguém. E sabe mais de economia aplicada, prática, do que ninguém. Já é candidato desde 1989. Então, na primeira derrota fez o Instituto de Cidadania, uma espécie de ONG, e convidava todos os intelectuais. Eu conhecia-o de vista, mas aí passei a ser assessora dele. Eu, uma série de economistas progressistas, filósofos, sociólogos.

Era uma espécie de academia informal?

Claro. De maneira que ele fez uma “universidade” que durou de 1989 a 2002.

Como “aluno”, como era?

Ah, brilhante, brilhante. Tem uma memória prodigiosa. E quando havia discussão académica e ele percebia que as questões estavam resvalando, não deixava. Ele vai no gume. Tem um sentido de oportunidade muito afiado, uma mente muito lógica. Isso é que é impressionante. Tem um coração popular, uma emoção popular, mas a cabeça dele é totalmente lógica. É dos homens mais inteligentes que conheci. Se não o mais.

Diria que o Lula é talvez o homem mais inteligente que conheceu?

Sem dúvida. E não apenas politicamente. É uma inteligência nata. É um génio do povo. Nós tivemos um génio do povo. Se não, não teria chegado lá. Você acha que alguém vindo de onde ele veio, com as dificuldades que teve, chega a presidente? Não. Ele é um génio do povo, mesmo, e impressiona qualquer um.

A senhora tem uma frase que é: “O Lula é o maior intelectual orgânico do Brasil.”

Os intelectuais como eu são clássicos. E ele é orgânico. Interpreta e representa organicamente o povo brasileiro.

Não tem nada a ver com um Hugo Chávez?

Não, imagina! O Chávez é de origem militar. Ao Chávez é que se podia chamar populista, embora eu o ache mais uma espécie de caudilho ilustrado.

E o Lula não tem nada de caudilho [líder carismático e autoritário]?

Não, que caudilho! Ele jamais faz apelos carismáticos. Ele fala com o povo, ou com quem quer que seja, de igual para igual. Faz piada, faz humor.

É um deles?

É um deles. Mas também quando se encontra com a classe média é como um de nós. Não tem complexo de inferioridade, nem de superioridade.

Não tem ressentimento, é isso?

De nenhuma espécie. E não gosta que fiquem elogiando ele de mais. É muito lúcido. Como a lucidez é uma característica da inteligência analítica, ele tem uma inteligência analítica poderosa. E como é do povo, eu digo que é orgânico.

A senhora escreveu que ele foi quem mais avançou na “republicanização do Brasil”. No sentido de democratização?

É. Porque está dando voz ao povo. A preocupação dele é tornar cidadãos os que estão à margem. E não com palavras, com factos. Indo até eles, dando-lhes direitos, com a preocupação de que as políticas sociais sejam para incorporação.

O Lula, entre as derrotas, fez várias viagens ao Brasil inteiro, chamadas Caravanas da Cidadania. A palavra que escolhe sempre é cidadania. Por isso digo que é republicanização. O que ele quer é que todos os brasileiros tenham cidadania, possam-se expressar, ter direitos. Quer acabar com os dois Brasis, em resumo. Quer fazer disto uma nação.

Quando chegou ao Brasil, o pensamento do antropólogo Darcy Ribeiro foi importante para si, a ideia de construir uma democracia multiracial nos trópicos. O Brasil está mais perto disso?

Está. Nunca julguei que chegasse. Mas agora acho que a democracia está consolidada no Brasil. A coisa multiracial está avançando, porque os direitos dos negros, dos índios, estão sendo reconhecidos. E os dois Brasis estão terminando. Essa nossa vergonha.

Lula é acusado de tentações autoritárias, de se apoderar da máquina do Estado, de se enfurecer com a imprensa. Há toda esta tensão.

Ele ironiza, ridiculariza, o que é outra coisa, porque é muito do estilo popular, rir dos defeitos do adversário.

Mas não há uma tentação autoritária? Quando se fala do inchaço da máquina do Estado…

Que inchaço da máquina do Estado, coisa nenhuma. Nós desmontámos o Estado do Fernando Henrique, que fez uma política neo-liberal durante oito anos, nunca fez concurso público e deixou que todo o Estado ficasse terciarizado, com gente que trabalhava sem contrato, sem carteira assinada. Isso é que inchaço. O Lula faz concurso público, a terciarização está diminuindo, está aumentando o pessoal com carteira assinada. Enfim, estão-se reconhecendo formalmente os direitos trabalhistas. E isto é autoritarismo?

É possível que em alguns cargos de confiança o Lula tenha errado, mas também o Fernando Henrique errou, botou vários em cargos de confiança que nas privatizações se revelaram pessoas sem escrúpulos. Errar em cargo de confiança acontece em qualquer governo. Agora, no Estado, não, porque o Lula fez concurso. Foi por mérito, não para inchar a máquina.

A corrupção foi o problema que prejudicou mais o governo Lula?

Foi o que prejudicou a imagem. Não propriamente dele, que tem 80 por cento de aprovação. Prejudicou os candidatos dele, como está prejudicando Dilma, prejudicou a imagem do governo.

Mas ele tirou, por exemplo, o José Dirceu [protagonista do escândalo Mensalão, em que o PT pagava a deputados uma mesada], de quem era amigo antiquíssimo. Não há nepotismo.

Todos os casos de corrupção declarada, ou objecto de inquérito público, foram demitidos.

Por exemplo, com o Berlusconi, não há dúvida nenhuma de que aquilo é um governo corrupto, porque ele é um corrupto. Agora, ninguém acusou o Lula directamente. Acusaram-no de ter fechado os olhos, mas ele não fechou olho nenhum. Podia ter mantido o José Dirceu, e dizer que era culpa de fulaninho e sicraninho, enfim daqueles que fizeram lá os “mal-feitos”.

Como podia ter mantido a Erenice, não tinha processo contra ela.

Agora, tem pêtistas que não gostaram que o PT não expulsasse esses quadros. Eu fazia parte da tendência chamada refundação. Achava que devíamos dar uma refundada e ter um código de ética mais pesado. O argumento dos outros era que seria injusto expulsar enquanto não ficasse provada a culpa.

Obviamente, não tenho a menor simpatia pelos quadros que foram acusados. Quanto mais não seja por ineficácia política. De um homem da importância de José Dirceu, que foi presidente do partido anos, e deixa o tesoureiro nomeado por ele fazer o que fez, dele é que se pode dizer que como estava preocupado com o poder esqueceu essa parte [ter mão na corrupção]. Ele pode ser acusado disso. O Lula não. Não tinha nada que ver com a máquina do partido. Lançou a Dilma, e depois é que o partido referendou. O Lula sempre teve muita autonomia em relação ao partido. Tanto que o pessoal fala que há o pêtismo e o lulismo.

Acha que há?

Há mesmo. Porque o Lula é maior que o partido. Acha que essa malta pobre que vota nele é pêtista? Coisa nenhuma. São pentecostais, a maior parte não tem partido. Acreditam no Lula. O lulismo é um fenómeno de massas. O pêtismo é um fenómeno orgânico, de um partido de esquerda que foi andando para uma espécie de centro-esquerda, social-democrata, que hoje já não existe na Europa, porque a Europa está decadente.

A Europa está decadente?

Ah, está. Puxa vida. Bota decadência, não é? Até nós.

Até nós?

Nós, portugueses [risos].

Seguimos o exemplo dos outros. O único país que seguiu menos esse exemplo foi a Suécia, que teve um período neo-liberal muito curto. Nós virámos neo-liberais. Não somos social-democratas faz horas. Nem nós, nem a Europa inteira continental. Nem a Inglaterra, nem nada.

O Lula é um social-democrata?

É. Vamos ver: social-democrata é quando você representa organicamente os trabalhadores. Ora, se há social-democrata é o Lula. Jamais foi a favor da luta armada, jamais. Sempre ficava meio chateado entre a discussão dos intelectuais e dos que vinham da igreja. O PT tem três origens: a sindical, que é a dele, a da igreja, católica, e a dos intelectuais revolucionários. Perdiam um tempo danado a discutir e a vontade dele era mandar os padres rezar e os intelectuais para a academia, e não chatearem ele [ri]. Isso ele disse uma vez para mim, rindo: “Você não tem ideia do que era!” Quando eu entrei, [o PT] já estava manso.

Nunca quis ser ministra?

Não. Não tenho temperamento para ser executiva. Fui deputada porque me pediram.

O Lula nunca a convidou?

Não. Ele conhece-me, sabe que eu sou pêlo no vento. Eu sou muito mais agressiva do que a Dilma, muito mais. Ela consegue disfarçar a raiva dela, eu não. Quando fico com raiva, fico. Digo na cara das pessoas o que acho. Eu não seria uma boa ministra. Sou uma boa assessora.

Porque diz o que pensa.

Isso. O que é importante. Alguém que não fica puxando o saco do chefe. Eu não puxo saco de ninguém. Várias vezes disse ao Lula coisas com que ele não concordava.

Por exemplo?

Por exemplo, quando ele fez a aliança com o Garotinho [ex-governador do Rio, condenado por corrupção]. Eu não votei.

Já agora, Collor de Melo e Sarney [ex-presidentes envolvidos em escândalos, que também fazem parte da base de apoio de Lula]. Sente-se confortável com estas alianças?

Eu não sigo as instruções. Se a aliança for com alguém que considero indecoroso, não voto.

É o caso de Sarney ou Collor?

Collor, sim. Sarney, nem tanto. O Sarney que conheço é o da transição. Na primeira parte do governo fez o que pôde. Depois, degringolou. E nunca mais foi candidato a nada. Acho injusto confundir o Sarney com o Collor. O Collor é uma coisa desqualificada.

Há quem critique programas como o Bolsa Família como a criação de uma rede de dependência do governo, que pode ter o efeito contrário justamente a essa autonomia dos cidadãos. O que acha disto?

Acho que é mentira. O Lula tirou 28 milhões da pobreza. Esses não são mais dependentes da Bolsa Família, porque a Bolsa Família é para os pobres. Esses 28 milhões entraram no mercado de trabalho, são assalariados, ou têm os seus pequenos negócios. O que o Lula fez foi proteger os pobres, não deixar os caras morrer de fome. Mas uma vez que ficaram acima do salário mínimo, não. Ninguém que ganhe acima do salário mínimo tem Bolsa Família. Pode ter outras.

Como economista, como vê estes programas?

Acho que é o correcto. Ao tirar da pobreza, e meter no mercado de trabalho vinte e tantos milhões, você está consolidando o mercado interno. Por isso é que a crise internacional não nos atingiu duramente. Por isso, e porque o sector externo estava bem. Tínhamos pago a dívida externa.

E Lula investiu no consumo…

É, deu crédito, além de ter dado emprego. Deu muito emprego. Mais do que prometeu. Investiu no mercado interno e deu financiamento para aquisição de bens necessários, tipo geladeira [frigorífico]. As pessoas dizem: “Ah, fica financiando geladeira…” Mas neste país quente querem que não se financie geladeira? E as pessoas comem o quê? Carne podre? Evidentemente que o que ele fez está correcto. Passámos de uma taxa de crédito de 20 e tantos por cento para 40 e tantos. O que é bom. Não é como nos países ricos, que era 120, 130, o que deu na catástrofe que deu [crise de 2008]. Aqui não tem alavancagem do crédito. Não tem incumprimento alto, inclusive, ou seja, não pagar a prestação que deve. Os devedores pagam, e quem mais paga são os pobres, exactamente. Essa é outra ideia, que pobre não paga. É mentira. Quem não paga é a classe média-alta, que usa cartão de crédito, cheque especial, vai-se endividando e endividando. O povo não faz isso. Nem tem cartão de crédito nem cheque especial. Tem banco, isso sim. Foi uma coisa importante.

O Lula não fez só o Bolsa Família. Fez O Luz para Todos, fez a Bancarização, que é você ter direito, mesmo sem carteira de trabalho, a poder ir ao banco e ter crédito. Essas coisas que implicam integrar o cidadão na sociedade.

O que é está em jogo nesta eleição, de facto? É uma eleição importante? 

É importante. É a continuidade deste esforço em todos os sentidos. Desde a política externa autónoma, que é fundamental. As pessoas não se dão conta, porque aqui ninguém sabe nada de política externa, então a classe média nem fala no assunto.

Uma das críticas maiores ao governo Lula é o facto dele falar no tom em que fala com Chávez, com o regime cubano, com Ahmadinejad.

Isso é tudo uma bobagem, porque tem de falar com todo o mundo. Lula também fala, e é amigo, do presidente dos Estados Unidos. Só que não se submete.

Mas a questão não é falar, é…

É falar sim, porque ele não fez nada que não fosse de acordo com as regras da nossa constituição e as regras internacionais.

A questão que algumas pessoas colocam é se faz sentido um presidente como Lula ir abraçar os irmãos Castro num momento em que estão dissidentes a morrer e a serem mortos.

Faz sentido como faz sentido ir abraçar qualquer um. Então eu pergunto: faz sentido o governo dos Estados Unidos ter sustentado com dinheiro, com apoio da CIA, todos os golpes de Estado da América Latina?! Isso ninguém critica! Aposto que essa gente da classe média nunca falou nos golpes latino-americanos financiados pelos Estados Unidos e pela CIA!

Certo. Mas a pergunta…

Então?! Nós não estamos financiando golpe de Estado! Só estamos indo a governos legítimos. Não estou falando democráticos, estou falando legítimos.

Como alguém que acredita profundamente da democracia não a incomoda…

Não me incomoda nada! O Oriente Médio não tem democracia nenhuma, e não terá tão cedo. Há tanta possibilidade de ter democracia no Irão, no Iraque, naquela república petroleira que sustenta tudo…

A Arábia Saudita. Mas eu não estava a falar do Oriente Médio…

Como não? Uma das críticas maiores foi ele ter falado com o Irão. Como não está falando no Oriente Médio, se foi aí que a imprensa espirrou? O Castro é periódico. Todo o mundo sabe que ele é amigo do Castro de Cuba.

Mas estou a perguntar-lhe a si.

Acho que ele tem todo o direito. Eu também não teria nenhum inconveniente se fosse a Cuba — não tenho nada que fazer lá, de momento, nem tive, no passado — em cumprimentar o velho Castro, imagina, que é uma figura histórica totalmente relevante. Agora de repente o Castro não tem importância nenhuma? Eu teria inconveniente era em cumprimentar o primeiro-ministro da Itália [Berlusconi], esse sim, que é um ladrão.

No caso da Itália, não é só por causa da corrupção. É por causa do neo-fascismo, que Berlusconi promoveu, e de que é aliado. O que está acontecendo na Itália é gravíssimo, voltar o fascismo à Itália como partido legal.

Mas se cumprimentasse Castro, provavelmente também lhe diria o que pensa, não? 

Sem dúvida nenhuma. Ia dizer: “Sei que agora não é você quem manda, é o Raul, mas porque é que não libera logo esses caras, e pára de ter uma praga em cima de você?” Eu diria. E ele diria: “Porque não, nhim-nhim-nhim, nhim-nhim-nhim, lá os argumentos dele. Digo sempre o que penso. Nos Estados Unidos também dizia, quando estava lá.

A senhora acha que isso não teve custos políticos para Lula?

Custos políticos não teve, porque as pessoas que dizem isso nunca votaram no Lula.

Há pessoas que votaram nele e dizem isso.

Não senhora. Não é pela política externa. Não é verdade. Podem ter-te dito que votaram, mas é mentira. A política externa [de Lula] não é uma crítica da esquerda. Ao contrário. Isso é uma crítica da direita.

Concentrando-nos na América Latina, a minha questão era se faz sentido uma figura como o Lula, justamente pelo que transporta de inspiração, de exemplo…

Faz todo o sentido! Não é uma política de autonomia? É! Cuba está ou não cercada pelo boicote económico americano? Está. Um dos problemas económicos deles é esse.

Justamente. Uma palavra de Lula aí não teria força em relação à repressão política, dos prisioneiros?

O Lula não se vai meter nas decisões de cada país. Vai lá para mostrar simpatia pelo facto de que eles estão sendo cercados. E deve ter falado [na questão dos presos políticos]. Porque ele disse-me que isso foi tocado.

É?

Mas amigavelmente. Não vai agora se meter na política dos outros. Chama-se política de não intervenção. Ninguém se intromete. Se fosse à Itália provavelmente também cumprimentaria o Berlusconi. Só que não foi, graças a Deus. Acho que é um dos poucos países onde não foi. Não deve ter sido por acaso. Foi à Alemanha, a França, e também não deve morrer de amores pela Merkel, ou por aquele francês, que é um autoritário de direita, o Sarkozy. E daí? Por acaso ele critica o Sarkozy em público, ou vai lá peruar sobre os direitos dos franceses? Isso não se usa. Isso não é diplomacia. Eu faria, mas o Lula é um estadista, representa o estado brasileiro.

Outra coisa com que a direita não concorda é a política Sul-Sul, e é o caso do Serra, que hoje é um homem de direita.

Acha que ele é um homem de direita?

Hoje, virou. Porque o partido dele virou a direita possível. Dado que a direita clássica está encolhendo no Brasil, ele foi-se estendendo para a direita. Então o partido dele hoje, no máximo, pode-se chamar de centro-direita. Como, no máximo, o nosso pode ser chamado de centro-esquerda. Você tem o centro dominando o espectro ideológico. Ora vai para a esquerda, em certas eleições. Ora vai para a direita.

MEMÓRIAS DE PORTUGAL


Falemos um pouco do seu percurso antes de vir para o Brasil. O seu pai acolheu refugiados da Guerra Civil de Espanha.

É verdade [ri].

Era anarquista, o meu velho. Nasci em Anadia mas vim com um mês para Lisboa. Então sou alfacinha. Estive em Sacavém, nas Avenidas Novas, perto lá da Igreja de Fátima…

Avenida de Berna.

Isso. Estive em vários lugares.

O seu pai era comerciante.

Era. E essa frase de que me lembro [dos refugiados] era quando estávamos num bairro popular, de maneira que não se notava tanto. Se enfiasse anarquistas em bairro de classe média tinha-se ferrado. O pessoal estava saindo, estavam perdendo a guerra, e Lisboa era um lugar de passagem de todo o pessoal que estava sendo perseguido, judeu, anarquista. E tinha sempre vários segmentos da população que ajudavam. Aí cresci no meio do debate. O meu tio era comunista e o meu pai anarquista. Então, você imagina, no caso da Catalunha, em que a briga entre anarquistas e comunistas foi feroz, como é que se discutia.

Cresceu a ver esses refugiados em casa.

Quanto tinha sete, oito anos. Quando terminou a guerra, foram à vida deles. Depois teve a II Guerra Mundial. E aí é que eu cresci, no sentido em que aos 12 anos caiu Paris. Foi uma tristeza geral. Me lembro de nós todos em torno da BBC, ouvindo a notícia, chorando. Depois a fronteira russa, a queda de Leninegrado, que foi uma brutalidade. E finalmente no dia D, a gente começou a se animar. A guerra terminou quando eu tinha 15 anos. E venho para o Brasil em 1954. Vim casada, grávida da minha filha mais velha e matemática.

E veio porquê?

Ah, porque aquilo ali não dava.

Por razões políticas?

Ah, sim. Não havia emprego para gente como nós, por causa da ficha política.

Era comunista?

Não. Dado que tinha um pai anarquista, uma mãe da esquerda católica e um tio comunista, eu era progressista, digamos. Naquela altura até era mais de uma esquerda católica. Tinha amigos comunistas, anarquistas. Aqui, quando cheguei, também tinha trotskistas, mas isso não me lembro em Portugal. Aqui tinha muito intelectual ilustre que era trotskista. Tinha vários salões intelectuais: o dos comunistas, o dos trotskistas, e o da esquerda católica. E eu frequentava os três, para variar. Era muito estimulante.

Apesar de que, como morreu logo o Vargas, ficou um período meio brabo. Até me lembro de pensar: “Puxa, onde eu vim amarrar o meu cavalo. Fui em busca de democracia e pego um golpe pela cara.” Mas depois melhorou. E com JK [Juscelino Kubitschek] ficou aquela alegria. Aí, me naturalizei brasileira e fui fazer o curso de Economia. Já tinha 27 anos.

Depois atravessou toda a ditadura brasileira.

Menos um período de cinco anos, em que estive no Chile. Porque aqui estava muito difícil.

Não se cruzou com Serra [que esteve exilado no Chile]?

Claro que cruzei.

Então é lá que se encontram.

Claro. E foi lá que escrevemos o nosso artigo contra o “milagre económico” [brasileiro]. Depois eu voltei em 1973, fiz concurso para Campinas, e fiquei na ponte aérea Rio-Campinas. Dava parte das aulas lá e parte cá. Ajudei a formar o mestrado de Campinas, o doutoramento. Entrei pesado na vida académica. Foi bom ter feito matemática, porque o meu catedrático não tinha nenhuma noção de matemática. E foi assim que ele me indicou para auxiliar, depois fiz os concursos todos.

Houve um momento em que passou a sentir-se brasileira? Um clique?

Houve. O JK [Juscelino Kubitschek]. Trabalhei no Plano de Metas dele. Era uma tamanha alegria que você achava que o país estava indo para a frente. Paradoxalmente, eles não trataram da questão agrária, e também o salário mínimo não foi nenhuma maravilha, a partir de 1958 começou a cair, por causa da inflacção. A inflacção realmente é uma praga. Sou uma das poucas economistas de esquerda que é contra a inflacção. Os economistas de esquerda acham que a inflacção não faz diferença. Faz muita diferença. Para quem? Para os pobres. Para os ricos não faz diferença nenhuma.

Os brasileiros ficaram traumatizados com a inflacção, não é? 

Foram décadas. É um país classicamente inflaccionário. Esta é a primeira vez que não. E isso começou, diga-se a verdade, no Fernando Henrique.

O que é que acha que o Brasil lhe deu?

Inicialmente, susto [ri]. Uma pessoa chegar aqui, mata-se o presidente e fica tudo imerso… Susto. E como aqui o pessoal é meio inconsciente, a esquerda, mesmo quando era ilegal, vivia batendo papo nos botequins. E eu dizia [sussurra]:

Escuta, aqui não tem PIDE?”

PIDE?”

Sim, polícia política.”

Ah, não sei, deve ter, mas a gente está aqui num bar.”

Ué, mas um bar é uma coisa aberta!

[risos] Eu ficava espantadíssima. Não tinha aquela clima português em que você olhava para a esquerda e para a direita até para ler um jornal. Então, essa foi a primeira coisa: relaxei mais. Em segundo lugar, a coisa da alegria, de ver uma civilização brotar, o que é muito bacana. Ver música, teatro… Culturalmente era muito rico. Aqui, essa parte, era liberal. Só na ditadura propriamente dita é que censuraram as manifestações culturais.

Na ditadura, fiquei no Brasil de 1964 a 68, quando ainda tinha muita crítica. Em 68 é que eles endureceram. E por sorte eu fui [para o exílio] antes. Aí caiu gente para burro, intervieram nas universidades. Se eu tivesse aqui teria sido expulsa.

Eu tava lá [Chile] e também foi uma alegria.

Conheceu Salvador Allende?

Conheci. Conheci todo o mundo. Até pedi uma licença — porque estava a fazer um doutoramento em Paris — e fui trabalhar com o governo. Eu e o Serra.

Com o governo Allende?

[Acena] Fomos os dois colegas no ministério da Economia. Como tinha de voltar para tomar posse na universidade, voltei em Março de 1973. E o golpe [de Pinochet] foi no Outono [véspera de Outono no hemisfério norte. No sul, véspera de Primavera (mboaba)]. Eu tinha deixado a minha filha e o meu filho, porque pretendia fazer outra licença. Mas aí vi que não dava, porque já tinha havido o diabo, trouxe o menino, e ela que tinha casado com um chileno ficou lá. Aí foi uma coisa muito angustiante. Depois quando ia para um seminário no México, prenderam-me no aeroporto aqui no Brasil e fiquei lá num desses aparelhos de repressão 48 horas. Assustador. Não teve tortura. Ameaça, ficar nua, fotografada de todos os lado, não poder comer, não poder beber, não poder fumar, e aquelas celas isoladas.

Sempre fumou assim sem parar?

Sempre, desde os 14 anos. Fumo dois maços. Claro, em entrevista fico nervosa e fumo mais [ri].

Então o Brasil me deu maturidade e uma experiência de vida rica.

E Portugal para si é o quê?

É remoto. Hoje não tenho mais nenhuma ligação íntima. Tenho uns primos vagos na Anadia. A Maria de Lourdes Pintasilgo, que era minha colega, morreu.

Foi sua colega onde?

No liceu Filipa de Lencastre, e depois No Instituto Superior Técnico, onde entrei com 16 anos. Estive com ela várias vezes, quando ela vinha aqui eu sempre a via. Essa era uma mulher fantástica. A verdade é que nós, as mulheres portuguesas, somos fantásticas. A coisa das Marias portuguesas é um facto. São mais lutadoras que os homens. Eu acho. Desde a Padeira de Aljubarrota para cá.

No tempo do Salazar era uma apagada e vil tristeza. Agora, como eu tinha sido presa aqui na véspera da revolução dos cravos e me disseram que me cortavam a nacionalidade se eu saísse, fiquei com medo e não saí do Brasil [nos dois anos a seguir ao 25 de Abril]. Depois fui, e talvez tenha ido numa das últimas marchas com os cravos, com os capitães e o velho comuna, que acho que já morreu…

Álvaro Cunhal.

O Álvaro já morreu, não já? O velho Cunhal. Descemos a Avenida da Liberdade com os cravos na mão. Foi simpático. Mas não é um país estimulante como o Brasil. O Brasil é um país imenso e muito diversificado. Lá é muito pequenininho.

24.10.2010 - 08:22 Por Alexandra Lucas Coelho, no Rio de Janeiro

[Legenda da foto da publicação originalAo longo de décadas, Maria da Conceição Tavares formou gerações de economistas e líderes políticos, incluindo Lula (Pedro Vilela/AFP)]

Amanhã: Entrevista com Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, apoiante de José Serra: “Lula comprou o voto do povo”.

http://www.publico.pt/Mundo/lula-e-um-genio-do-povo_1462504?all=1

Reproduzido por Carta Capital em 29.10.2010

[Legenda da foto na Carta Capital: Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares, figura nacional no Brasil, vota em Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par. Foto: Marcelo Carnaval]

http://www.cartacapital.com.br/politica/%E2%80%9Clula-e-um-genio-do-povo%E2%80%9D/

Mais sobre Marcelo Carnaval no site da ABI

terça-feira, 20 de março de 2012

Metrô tucano de SP - o povo fala



Enviado por SpressoSP em 15/03/2012

Reportagem realizada para o SPressoSP mostra a insatisfação das pessoas com o metrô na cidade de São Paulo.
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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ariano Suassuna: um espetáculo de lucidez


Ariano Suassuna impressiona tanto pela autenticidade  como pela simplicidade ao transpor a barreira da formalidade que muitas vezes imagina-se que a cultura pressupõe.

Ariano também não se esquiva de questões políticas, sendo uma exceção dentro de um universo de intelectuais e artistas que foram inclusive imprescindíveis no processo de redemocratização, mas hoje preferem se esquivar. Uma esquiva preocupante e conveniente, diga-se. Na verdade, todos os intelectuais e artistas de projeção deveriam ser mais claros nos seus posicionamentos em relação às questões cruciais e de interesse coletivo da nação. Ariano Suassuna, paraibano, figura no grupo dos que não sobem no muro, e esta é mais uma dentre tantas razões para que não deixemos de destacá-lo.

No vídeo a seguir, o escritor fala de suas origens e da importância da cultura popular. Em seguida, o ex-presidente Lula faz algumas considerações sobre a relação que tem com Ariano. Assista:

Com Lula na platéia, Ariano Suassuna emociona e faz rir em 'Aula Espetáculo', by Pragmatismo Politico

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Cadeirante denuncia dificuldade de conviver com a estrutura da cidade


José Luis da Silva Costa é brasileiro de Barra do Corda – MA, mora no assentamento Califórnia no município de Açailândia. Conhecido como Zé Luis, construiu uma carreira de liderança no Movimento dos trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do qual é um dos principais articuladores. Na Califórnia, a luta de Zé Luís se junta às ações da campanha Justiça nos Trilhos, ONG internacional que mescla Igreja, Movimento estudantil, partido político e movimento social e denuncia abusos cometidos pela segunda maior mineradora do mundo: a Vale (antiga Companhia Vale do Rio Doce).

Estudante de Comunicação Social – habilitação Jornalismo, Zé Luís deixa o assentamento Califórnia todas as manhãs com destino ao campus da UFMA de Imperatriz e apesar da condição de cadeirante, não se deixa abater pelas dificuldades. Em sua luta social, José Luis da Silva Costa denuncia o descaso com os cadeirantes e reforça o coro da campanha Justiça nos Trilhos, como mostra essa entrevista.

1) Na condição de cadeirante você enfrenta problemas que vão desde a falta de estrutura urbana adequada até o abuso de certas instituições e pessoas por causa da sua condição. O que é mais difícil?

Rapaz, o que é mais difícil de enfrentar é o fato da gente não ter uma cidade preparada para um cadeirante. De uma forma geral, se você vai numa loja tem calçada, se você for almoçar num restaurante popular, você tem que ir necessariamente pelo meio da rua, porque as calçadas não te dão condições de tráfego, se for atravessar uma faixa de pedestres você tem que ir pelo meio da rua porque a faixa não vai de encontro a uma rampa que deveria ter, tu vais numa lanchonete/bar se precisar utilizar o banheiro este não vai ser adaptado para um cadeirante. O fato de eu estudar e ter que pegar duas conduções todos os dias pra vir à Imperatriz serve como denuncia dessa situação, espero que as empresas de ônibus criem condições de acessibilidade para as pessoas que usam cadeiras de rodas porque na verdade é um direito nosso e dever deles.

2) Algumas empresas de ônibus em Imperatriz já fixaram em suas conduções o símbolo de acessibilidade e afirmam que prestam esse serviço. Cerca de 17 ônibus são adaptados e sua queixa não confere segundo essa perspectiva. Afinal, os ônibus de Imperatriz estão adaptados?

Rapaz, eles não estão adaptados eu acho que mesmo adaptados precisa – se também adaptar a cabeça dos donos dessas empresas, dos patrões. Tem uma empresa que tem 15 ônibus adaptados pra cadeirante, mas nenhum funciona pelo menos os que passam na minha rota. Ou acontecem que os ônibus não têm manutenção daquele equipamento, ou acontece que o motorista está com preguiça de levantar de lá e vir mexer no equipamento, pois quando colocaram esses ônibus, os cobradores foram demitidos, então só tem um motorista como funcionário daquele ônibus o que torna a situação complicada. A outra empresa tem dois ônibus adaptados, essa me surpreendeu um dia desses:; eu peguei um ônibus que há tempos eu não pegava, o 2040, que não funcionava, tava quebrado. Um dia desse ele parou e me trouxe até a UFMA, e eu fiquei surpreso. Eu até falei com o motorista: “olha, bota esse ônibus nessa linha porque o cadeirante que usa sempre essa linha sou eu”. No outro dia os donos dessa empresa tiraram o ônibus da linha, ou seja, a cabeça dos donos dessas empresas precisam também se adaptar a essa condição.

4) O seu discurso no movimento estudantil se equipara aos seus discursos partidário, de movimento social e religioso. Essa interconexão foi o que te permitiu optar pelo PSOL, MST e Teologia da Libertação?

Eu só estou no PSOL e no MST por causa da Teologia da Libertação e só fui da Teologia da Libertação porque eu me formei cristão dentro de uma comunidade católica que seguia essa linha da Igreja Católica, apesar de hoje eu estar sem religião nenhuma por causa de outras decepções com a própria Igreja. Ma, mas, o meu posicionamento político veio a partir da Teologia da Libertação, então, minha consciência política, de movimento estudantil e de Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra veio a partir da Teologia da Libertação.

5) Vocês têm tecido duras críticas à Igreja Católica, principalmente aos segmentos opostos a Teologia da Libertação, As críticas vão desde o comportamento conservador do clero à “acomodação” da Renovação Carismática em relação aos problemas sociais. Isso possui alguma relação com o fato de você não ter não ter concluído suas atividades no seminário e por conseqüência não ter alcançado o grau de sacerdote?

Não, porque, quando eu entrei no seminário eu já tinha essas críticas. Eu acho que (podem concordar ou não comigo, mas esse é meu ponto de visa e o ponto de vista da parte da igreja que eu seguia) a Igreja tem que ter um olhar diferente para as pessoas e para o mundo. São questões que estão muito na tradição e no passado. Ela tem um comportamento do século XVIII que eu acho que deveria ser mexido nesse momento que vivemos. A Teologia da Libertação traz essa ponta de esperança onde a Igreja assume uma opção preferencial pelos pobres, onde o pobre não é pobre porque Deus quis, mas porque existe alguém que surrupiou todos os bens que ele poderia ter para ter uma vida digna. A minha crítica vinha antes de entrar na Igreja, inclusive no seminário tivemos várias discussões por conta disso.

6) O vídeo “Não Vale” produzido pela ONG Justiça nos Trilhos mostra uma série de denúncias contra a mineradora Vale, principalmente da falta de sinalização adequada na via férrea ao longo do corredor da Estrada de Ferro Carajás (Parauapebas / PA – São Luís / MA). Você é uma das lideranças que tece duras críticas a mineradora, quando denuncia a poluição causada pelas carvoarias da Vale no assentamento Califórnia e no distrito Pequiá de Baixo, Município de Açailândia - MA. Você não tem medo de represálias ou de atentados contra a sua vida?

Rapaz. Olha, medo eu acho que posso dizer que não tenho, mas o medo faz parte da segurança da gente, se eu tenho medo de ir por aquela rua e eu preciso ir por aquela rua eu já vou mais precavido de alguma coisa, porém, eu acho que a Vale por ser uma mineradora mundialmente conhecida, ela não se importaria de (sei lá) eu acho que um “caiderantesinho velho qualquer desse que mora em Açailândia não faz nenhum medo pra ela não”. Em relação a Vale não, se fosse em outros tempos eu teria medo, mas em relação a Vale eu não tenho medo. Posso até me decepcionar em relação a isso, mas acho que ela não teria coragem de fazer nada contra a vida de ninguém, nem a minha, nem a do padre que ajuda a gente, nem dos colegas que fazem parte lá da luta com a gente na ONG Justiça nos Trilhos.

7) O MST e a ONG Justiça nos Trilhos acusam o poder público de omissão aos abusos e submissão à Vale. Essa denúncia é grave, assim como as outras, mas nada de concreto foi definido sobre essas questões. As denúncias foram feitas no vídeo “Não Vale” produzido pela ONG.  O que te leva a crer que o poder público é omisso e submisso à Vale?

Rapaz o que demonstra claramente ali, é que a Vele consegue ter o controle político da região, das Prefeituras, do governo estadual. A Vale só conseguiu instalar uma carvoaria do lado do assentamento porque na época era a governadora Roseana Sarney que concedeu a autorização. Então agente sabe dessas “maracutaias” que existem, apesar de hoje parecer existir um pequeno conflito entre a Vale e o Edson Lobão, não sei até que ponto isso é verdadeiro ou falso, o que eu sei é que a Vale tem esse controle político (econômico) dessas instituições, tanto municipais como estaduais e principalmente federais.

8) Depois da apresentação da Peça “Que trem é esse?”, promovida pela ONG na Semana H de história realizada ano passado na UEMA, ficou nítido o interesse de setores ligados ao movimento estudantil em relação à proposta da implantação do comitê da ONG Justiça nos trilhos em Imperatriz – MA. De que os estudantes podem contribuir nas atividades da ONG aqui em Imperatriz?

A ONG precisa desse reforço, talvez esteja aí um bom momento e uma oportunidade de trazer as atividades dessa campanha para Imperatriz. Por exemplo, teve algumas atividades lá em Açailândia em que estudantes de Jornalismo foram participar. A professora Msc. Emilene participou de algumas reuniões, tem contato com os padres combonianos, desenvolveram alguns trabalhos, só que houve um distanciamento depois. Os estudantes da UEMA de história, letras, pedagogia podem contribuir e os estudantes de Jornalismo da UFMA também, cada um na sua área de formação. Isso talvez seria o pontapé inicial para trazer a ONG pra cá (Imperatriz).

9) Imperatriz não está inserida nesse eixo do corredor da Estrada de Ferro Carajás, onde acontece a maior parte dos abusos denunciados pela ONG. Qual seria a linha de ação da ONG Justiça nos Trilhos em Imperatriz caso esse comitê seja criado?

Olha, na verdade, essa pergunta eu acho que o Padre Dário poderia ter mais facilidade para responder ou então o nosso advogado que é o Danilo (não sei o sobrenome dele, é um sobrenome enrolado), mas eu posso dizer o seguinte: Justiça nos Trilhos, a ONG, a campanha faz um levantamento dos crimes causados por onde passa os trilhos da Vale. Eu não sei até que ponto poderia se estender isso a Imperatriz mas é por aí”. Se os trilhos da Vale passam por aqui então tem que ser dito. No entanto, nossa maior briga agora (mesmo que a gente não impeça) é contra a duplicação da ferrovia (Estrada de Ferro Carajás) que já começou.

* Entrevista produzida para a disciplina de Gêneros Jornalísticos

Hilton Marcos Ferreira | Qua, 25 de Maio de 2011 12:47 | atualização 20:24

http://www.imperatriznoticias.com.br/noticias/geral/3469-cadeirante-denuncia-dificuldades-de-conviver-com-a-estrutura-urbana-da-cidade

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Pernambuco terá cinco novas barragens, como parte da política nacional de prevenção

O estado de Pernambuco terá cinco novas barragens para contenção de bacias hidrográficas, sendo que duas delas – Panelas II e Gatos – cujos convênios foram firmados nesta sexta-feira (13/5) pela presidenta Dilma Rousseff e o governador Eduardo Campos, em Brasília (DF), já estão em processo de licitação, e as outras três em fase de elaboração dos projetos. A informação foi apresentada pelo ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, após audiência com a presidenta Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto.

De acordo com Fernando Bezerra, os projetos básicos e executivos das três outras barragens serão concluídos por volta do mês de agosto, quando então serão celebradas novas parcerias. O investimento global das cinco barragens – completou Bezerra – será da ordem de R$ 640 milhões, sendo R$ 320 milhões de aporte federal e os outros R$ 320 milhões do governo do estado.

    “Essa é mais uma demonstração inequívoca do governo federal de dar a virada na política nacional de defesa civil, ampliando os investimentos na linha da prevenção, no sentido de evitar que novas tragédias possam se repetir nessa importante região do estado de Pernambuco”, afirmou o ministro.

Após o relato do ministro da Integração, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, conversou com os jornalistas e explicou que a meta do governo é chegar, até o fim de 2011, com as obras das cinco barragens já iniciadas.

    “Duas delas tem um prazo de construção de um ano e outras três com um prazo que pode chegar a dois anos”, informou.

O governador afirmou que o estado realizou um levantamento topográfico das bacias hidrográficas e desenvolveu, a partir dos dados coletados, um sistema de monitoramento com informações a cada 15 minutos. Segundo Campos, esse levantamento “foi fundamental para que em 2011 não houvesse nenhuma vítima”.

    “Então o sistema de monitoramento e prevenção já funcionou este ano”, disse.

Segundo dados da Defesa Civil, o estado de Pernambuco tem hoje 14 mil famílias desalojadas ou desabrigadas em decorrência das chuvas. O governador informou que, no momento, 12 mil casas estão sendo construídas; diversas rodovias que foram avariadas sendo reconstruídas; o abastecimento de água foi restabelecido e a ligação com os municípios afetados foi refeita.

    “Estamos prosseguindo com uma série de obras que estavam ocorrendo nessa região; uma parte delas foi danificada. Estamos recomeçando”, concluiu.

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Blog do Planalto | Sexta-feira, 13 de maio de 2011 às 18:58

http://blog.planalto.gov.br/pernambuco-tera-cinco-novas-barragens-como-parte-da-politica-nacional-de-prevencao/

Churrascão da “Gente Diferenciada” em Higienópolis



O anúncio de que o Metrô de São Paulo mudou o local que abrigaria uma das suas estações, no bairro de Higienópolis, tradicional bairro de elite da capital paulista, levou a região ao ranking dos assuntos mais comentados do dia no Twitter - com todas as piadas que essa posição significa. Além disso, no Facebook, milhares de paulistanos aderiram ao “Churrascão da Gente Diferenciada”, marcado para acontecer no sábado, em frente ao shopping que leva o mesmo nome do bairro.

Isso acontece porque, em agosto de 2010, uma associação de moradores de Higienópolis anunciou que se opunha à construção da estação na região. A justificativa oficial, que acabou abraçada pelo governo do Estado, é que a estação da linha 6-laranja, que vai ligar a zona norte ao centro da capital paulista, ficava próxima demais, a 610 metros, da futura estação Higienópolis-Mackenzie, e longe demais, a 1.500 metros, da estação PUC-Cardoso de Almeida. A linha tem previsão de ficar pronta em 2017. Segundo o Metrô, o projeto da localização da futura estação Angélica está sendo reavaliado visando ao melhor equilíbrio da linha e para atender usuários moradores das áreas da região do Pacaembu, bairro vizinho a Higienópolis.

O problema, para Higienópolis, é que alguns moradores da região se colocaram contra a obra porque ela atrairia, segundo uma moradora entrevistada pelo jornal Folha de S.Paulo, “drogados, mendigos, uma gente diferenciada..." Foi o bastante para que a expressão “gente diferenciada”, que já tinha sido destaque no Twitter em 2010, voltasse à baila na tarde desta quarta-feira – e desse nome ao "churrascão". Além disso, não foi a primeira vez que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) recuou diante de pressões contra o metrô: a mesma coisa aconteceu em um bairro da zona sul da cidade, que também conseguiu barrar uma estação, da linha amarela.

Com informações do IG | Postado por Erick da Silva | Sexta-feira

http://aldeia-gaulesa.blogspot.com/2011/05/churrascao-da-gente-diferenciada-em.html

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Metrô de Higienópolis: São Paulo continua um burgo murado


Higienópolis não vai ter mais estação de metrô. Após pressão de moradores e empresários do bairro chique da capital paulista, o governo estadual desistiu de construir uma estação de metrô na avenida Angélica – a principal artéria da região. “Prevaleceu o bom senso”, afirmou fofamente o presidente da Associação Defenda Higienópolis, o empresário Pedro Ivanow. A estação integraria a linha 6, que deve ir de Brasilândia ao Centro (deve, porque em se tratando do metrô de São Paulo, tudo é ficção até que a inauguração prove o contrário). De acordo com o UOL Notícias, alguns moradores alegam que o metrô aumentaria o “número de ocorrências indesejáveis” e a área se tornaria “um camelódromo”. Lugar de gente fedida que atazana a vida da gente de bem.

O caso provocou uma onda de reações na internet contra a decisão do governo do Estado de privilegiar uma minoria em detrimento à execução de uma política pública de transporte que beneficiaria milhares de trabalhadores. As manifestações incluem até um churrascão, convocado pelo Facebook, a ser “realizado” na manhã deste sábado (14), em frente ao Shopping Higienópolis para comemorar a decisão bisonha.

Esse tipo de preconceito não é monopólio nosso. Por exemplo, o bairro de Georgetown, localizado em Washington DC, capital dos Estados Unidos, não tem estação de metrô. A despeito de supostas dificuldades técnicas para levar o trem subterrâneo até a endinheirada localidade, onde se encontram lojas de grife e restaurantes famosos, os moradores de lá – como os de Higienópolis – também pressionaram contra a abertura de uma estação. Quem quiser chegar tem que ir por cima ou andar mais de 1,5 quilômetro da estação de metrô mais próxima.

Mas São Paulo vai se aprimorando na arquitetura e no urbanismo da exclusão. O tema não é exatamente novo e ocupou espaço na mídia, por exemplo, quando o ex-prefeito José Serra resolveu implantar no complexo viário da avenida Paulista as chamadas rampas antimendigo, grandes blocos de concreto que impedem o povo de rua de montar sua casinha imaginária para se proteger do tempo e do mundo. E proteger, dessa forma, a gente de bem que estaria sendo assaltada durante as longas pausas dos congestionamentos. A mudança no traçado do metrô teve o objetivo claro de excluir, mais do que aproximar, alimentando mais ainda a ignorância que gera a intolerância, o medo e as cercas eletrificadas que circundam casas e apartamentos de luxo.

Logo após a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, José de Anchieta, com a ajuda de índios catequizados, ergueu um muro de taipa e estacas para ajudar a mantê-la “segura de todo o embate”, como descreveu o próprio jesuíta. Os indesejados eram índios carijós e tupis, entre outros, que não haviam se convertido à fé cristã e, por diversas vezes, tentaram tomar o arraial, como na fracassada invasão de 10 de julho de 1562.

Ao longo dos anos, a vila se expandiu para além da cerca de barro, que caiu de velha. Vieram os bandeirantes – hoje considerados heróis paulistas -, que caçaram, mataram e escravizaram milhares de índios sertão adentro. Da África foram trazidos negros, que tiveram de suportar árduos trabalhos nas fazendas do interior ou o açoite de comerciantes e artesãos na capital. No início do século 19, a cidade tornou-se reduto de estudantes de direito, que fizeram poemas sobre a morte e discursos pela liberdade. Depois cheirou a café torrado e a fumaça de chaminé, odores misturados ao suor de imigrantes, camponeses e operários. Mas, apesar da frenética transformação do pequeno burgo quinhentista em uma das maiores e mais populosas metrópoles do mundo, centro financeiro e comercial da América do Sul, o muro ainda existe, agora invisível. E, 457 anos após a fundação de São Paulo, esse mesmo muro impede o acesso dos excluídos ao centro do burgo paulistano. Mesmo que seja apenas para trabalhar para os mesmos senhores que negam a eles o mais básico dos direitos: o direito à livre locomoção.

O muro não é mais feito de taipa, mas de abaixo-assinados que votam por manter o bairro nobre supostamente protegido contra os seres de fora (que devem existir para servir e não para ter liberdade para irem onde quiserem na hora que quiserem). E de políticos que existem para cumprir os desejos de determinadas classes sociais a que eles pertencem ou que financiam suas campanhas.

Tolos. Mal sabem que o futuro de todos na cidade está profundamente conectado. No final, a urbe vai ser para todo mundo – ou não será de ninguém.

Blog do Sakamoto | 11/05/2011 - 17:34

http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/05/11/metro-de-higienopolis-sao-paulo-continua-um-burgo-murado/

domingo, 8 de maio de 2011

Governo demotucano: São Paulo não é mais o estado mais rico do Brasil


Os quatrocentões paulistas, que gostam de dizer que o estado é a “locomotiva do Brasil”, não poderão mais usar essa expressão. Segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas, depois de mais de 16 anos de gestão demotucana, São Paulo foi ultrapassado por Santa Catarina e Rio de Janeiro na condição de estado que tem a maior renda média. Por sua vez, no governo Lula, o País conseguiu reduzir a pobreza em 50,64%. A pesquisa também mostra que, de 2002 a 2010, os maiores ganhos reais de renda foram em grupos tradicionalmente excluídos. O Limpinho reproduz texto publicado no Portal G1. O editor deveria estar dormindo quando deixou sair uma matéria dessas.

FGV: Taxa de desigualdade no Brasil atinge mínima histórica

Desigualdade é a menor desde que começou a pesquisa, em 1960

A taxa de desigualdade no Brasil caiu à mínima histórica no final de 2010, segundo estudo divulgado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPS/FGV) na terça-feira, dia 3. Em oito anos – de dezembro de 2002 a dezembro de 2010 –, o País conseguiu reduzir a pobreza em 50,64%, de acordo com a pesquisa “Desigualdade de Renda da Década”.

“Em oito anos, no governo Lula, foi feito o que era previsto para 25 anos, de acordo com a Meta do Milênio da Organização das Nações Unidas, que era reduzir a pobreza em 50% de 1990 até 2015”, ressaltou o economista Marcelo Neri, coordenador do CPS/FGV.

A taxa de desigualdade, medida pelo índice de Gini, ficou em 0,5304 em 2010, a menor desde 1960, quando começou a pesquisa. Quanto mais perto de 1, mais desigual é o país. “Os principais motivos para isso foram, principalmente, a educação e, em menor parte, os programas sociais”, explicou Neri.

Entretanto, o economista diz que, quando comparado com outros países, ainda é “estupidamente alto, porém menor do que antes” o nível de desigualdade no Brasil. “Se é uma má notícia que a nossa desigualdade ainda é alta, a boa notícia é que ela deve cair. O que os dados mostram é que a queda continua”, destacou.

Renda dos mais pobres cresceu mais do que dos mais ricos

De acordo com a pesquisa, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD/IBGE), a renda dos 50% mais pobres no Brasil cresceu 52,59%, entre 2001 e 2009, enquanto a renda dos 10% mais ricos do País cresceu 12,8%. Isso significa dizer que a renda da classe baixa teve crescimento de 311% na comparação com os mais abastados.

Marcelo Neri também destacou conclusões da pesquisa que, para ele, foram inesperadas. “Fiquei muito surpreso com os dados”, disse o economista, ao mostrar que, de 2001 a 2009, os analfabetos obtiveram ganhos de 47%, enquanto quem tem nível superior teve queda de 17% na renda. No mesmo período, as pessoas de cor preta ganharam aumentos na renda de 43%, enquanto os brancos tiveram 21% de alta. Já as mulheres tiveram ganho na renda de 38%, contra 16% dos homens. “O que está ‘bombando’ é o mercado da base: empregadas domésticas, trabalhadores da construção civil, agricultores”, ressaltou, em tom informal, o economista.

São Paulo não é o mais rico e Maranhão, o mais pobre

A pesquisa mostrou que os chamados “grotões” brasileiros estão em alta, já que entre 2001 e 2009 os “maiores ganhos reais de renda foram em grupos tradicionalmente excluídos”. Segundo o estudo, Alagoas é, hoje, o estado com a pior renda média per capita do país. E, no mesmo período, o Maranhão, que era o estado mais pobre, teve ganhos na renda da população de 46%.

Já os estados de Santa Catarina e do Rio de Janeiro passaram São Paulo na condição dos que tem a maior renda média. “A migração do Nordeste para o Sudeste diminuiu bastante, com o inchaço das grandes cidades. O campo está se tornando mais atrativo”, observou Neri.

Em 30 anos, Brasil pode estar equiparado aos EUA

O coordenador da pesquisa explicou que o Brasil ainda “vai demorar uns 30 anos para ter um nível de desigualdade parecido com o dos Estados Unidos”, que, segundo Neri, está em 0,42. “Apesar de a economia brasileira não estar crescendo tanto, a renda dos mais pobres cresce em patamares chineses, enquanto a dos mais ricos está estagnada”, comparou Neri.

Entretanto, para o economista, a tarefa agora é mais complicada. “Vamos ter mais dificuldades para erradicar, pois esta terça parte que falta é o núcleo da pobreza no País”, explicou.

Para a próxima década, Marcelo Neri afirma que é preciso melhorar a qualidade da educação, continuar investindo em programas sociais e realizar obras de saneamento básico. “E é preciso fazer mais com menos recursos, pois não podemos aumentar mais ainda a nossa carga tributária”, acrescentou.

“As razões de meu otimismo são proporcionais ao tamanho dos problemas que temo hoje. A escolaridade no Brasil é ridícula, por isso acho que ainda temos muito a avançar”, finalizou.

Limpinho & Cheiroso | 4 Mai. 2011, 11:21

http://limpinhocheiroso.blogspot.com/2011/05/governo-demotucano-sao-paulo-nao-e-mais.html

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A nova Telebrás e o PNBL

A universalização da banda larga exigiu um esforço intenso para recuperar a Telebras.

Antiga holding do setor, com a privatização acabou quase sem função. Para dar conta das novas atribuições, decidiu-se montar um corpo técnico competente e trabalhar fundamentalmente com parceiros privados.

Segundo o presidente da Telebras, Rogério Santana, a empresa conseguiu bons técnicos junto à Anatel, e engenheiros do mercado, liberados pela fusão Telemar-Brasil Telecom. Mas também engenheiros de outras companhias privadas, que se interessaram pelo desafio de construir uma nova rede.

***

Constituído o corpo técnico, outro grande desafio foi a de preparar um planejamento meticuloso de compras, visando reduções de preço, principalmente devido ao emaranhado de regulamentos das licitações públicas.

A primeira contratação, através da MP 495, deu preferência para indústria nacional. Foram adquiridos equipamentos que geram o laser que vai para a fibra ótica, switches, roteadores menores – para transportar o sinal do backbone para as cidades.

***

Antes da privatização, o setor tinha 60 fornecedores nacionais; depois da privatização, restaram 13. A crise dos últimos anos apertou mais ainda o setor. As multinacionais remeteram muito recurso para fora, para atender às matrizes; e a fusão da Oi limitou sua capacidade de investimento.

Segundo Santana, quem sobreviveu foi devido ao diferencial tecnológico. Agora, com as novas demandas, essas empresas terão espaço para crescer.

***

Ainda hoje, depois de anos de privatização, a Telebras ainda é a 9o empresa brasileira com maior número de patentes registradas.

As vantagens são evidentes, diz Santana. Se quiser mudanças no software de equipamentos chineses ou americanos, levará anos. Com o desenvolvedor nacional, a resposta é instantânea.

E as características brasileiras são diferentes, por exemplo, da Europa. Lá existem distâncias pequenas entre as cidades. Aqui, distâncias continentais, grandes vazios e populações dispersas, obrigando a equipamentos com características fundamentalmente distintas.

***

A nova rede permitirá avanços tecnológicos relevantes. Um deles será a tecnologia radiocognitiva. São sistemas de software que permitem ao rádio descobrir a frequência mais adequada para a transmissão do sinal. Essa tecnologia está sendo trabalhada pelo CPqD e será bastante útil em um espectro poluído por muitas ondas sonoras.

***

Será ampla a capacidade da nova rede. Os oito roteadores permitiriam em tese o acesso simultâneo de toda a população da China, com 1 mb de capacidade per capita.

***

Hoje em dia, diz ele, a velocidade da banda larga não é assegurada pela Anatel. Um serviço oferece determinada banda. Mas, dependendo do número de usuários conectados, a banda efetiva entregue termina sendo muito mais baixa.

No caso do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), a velocidade entregue terá que ser efetiva, provavelmente 1 mb para cada usuário.

Coluna Econômica | Enviado por luisnassif, sex, 15/04/2011 - 09:47

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-nova-telebras-e-o-pnbl

quinta-feira, 7 de abril de 2011

De onde vem o exemplo? - # LUTO #

A mesma midia que exibe filmes cada vez mais violentos, no desespero de tentar segurar audiência, colhe um acontecimento da maior dramaticidade para capturar durante algum tempo a atenção de milhões de brasileiros.

Que saibam, pelo menos, evitar a espetacularização.

Porque não são personagens artificialmente montadas em Hollwood, nem permitem o distanciamento que pudesse haver em reportagens compradas, sobre pessoas de outros países, "ricos", "primeiro mundo" etc.

São filhos da massa de milhões de telespectadores, os pobres e remediados que representam a maioria dos brasileiros. E que estão chegando ao mercado. E querem chegar à cidadania.

Uma barbaridade que, até agora, não parece que se possa atribuir ao "tráfico", às "drogas", ou qualquer outro rótulo fácil do repertório já surrado por coberturas premoldadas.

Não que o país estivesse livre de massacres e barbaridades. Apenas, não costumam merecer da midia a mesma cobertura, sequer para captar audiência (um paradoxo em um setor voltado para o lucro). Os massacres típicos do que se convencionou chamar de "milícias". Décadas de esquadrões da morte. Massacres de ativistas nas áreas rurais de norte a sul do país. Estes, sequer são noticiados; ou quando são, reduzidos a crime isolado e nebuloso, coisa de quem "se envolve" em badernas.

Mas desta vez não há como atribuir a nenhuma quadrilha, milícia, coronelismo, máfia, poder, corrupção, ideologia, movimento ou categoria, para enquadrar em algum dos roteiros prefixados. O autor parece, até agora, tão perdido quanto suas vítimas, aos olhos da midia.

Parece um drama pessoal. De uma pessoa perdida na massa.

Será discutida a violência dos filmes enlatados exibidos pela TV? A violência banalizada pelo "jornalismo policial"? A violência institucionalizada do aparelho repressivo do estado? A violência feita espetáculo pela midia global?

Aposto 1 centavo que o público será inundado por "especialistas" da mente. De psicopata para baixo.

Nada de questionar como o mundo globalizado gera psicopatas em série, lhes dá o roteiro, promete divulgação e fornece o arsenal.

sábado, 12 de março de 2011

Gol anuncia venda de bilhetes em quiosques no metrô de SP

A Gol anunciou nesta quinta-feira que irá vender passagens aéreas em quiosques no metrô de São Paulo. Segundo a empresa, o canal é "destinado, principalmente, à nova classe média brasileira".

Os pontos serão inaugurados nas estações Itaquera, Sé e Luz. Será possível comprar bilhetes, alterar e cancelar reservas e esclarecer dúvidas de consumidores.

"A nova identidade terá itens que remetem aos aeroportos e faremos ações de comunicação com forte apelo visual", diz Claudia Pagnano, vice-presidente de mercado da companhia. "Nosso objetivo é fazer um trabalho de imersão das classes C e D no universo da aviação".

Segundo a Gol, as equipes dos quiosques foram treinadas "de forma diferenciada, com uma consultoria especializada em consumo popular".

"Durante 20 dias, os colaboradores passaram por cursos sobre a nova classe média, em que estudaram hábitos desse público, técnicas de vendas e linguagem", informa em comunicado.

CFSP | 10/03/2011 às 22h22min - Atualizada em 10/03/2011 às 22h22min

http://www.jornalfloripa.com.br/economia/index1.php?pg=verjornalfloripa&id=1504